terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"Há, em nós, abismos insondáveis, que jamais exploraremos"


Afinal, são inúteis essas tentativas de análise e de interpretação de nós mesmos. Há, em nós, abismos insondáveis, que jamais exploraremos, onde se recolhem, pelo tempo que lhes apraz, as combinações múltiplas, várias, tantas vezes contraditórias, que compõem as formas sucessivas do nosso espírito. Explicar-me-ei, dizendo que hoje dormimos arlequim, amanhã acordaremos pierrô. As vestes ficam guardadas num armário de nossas profundezas onde se amontoam indumentos de infinita variedade. Alguém no-las troca sorrateiramente, durante o sono, de acordo com um critério que nos escapa. E esse alguém às vezes se diverte, pondo-nos de casaca e em cuecas, ou pregando-nos um rabo de papel no jaquetão. O fato é que se frustra todo o esforço que despendemos para nos impor certa disciplina, certa unidade, certa coerência. À sorrelfa, algum diabo malicioso inutiliza o nosso trabalho, e amanhã seremos o que não queremos, e hoje somos o que ontem fôramos e não quiséramos ser mais.
(...)
Como já disse, a gente não sabe como essas coisas acontecem. Só posso dizer que experimentei hoje uma recidiva violenta, amanheci angustiado depois de ter passado uma noite fértil em sonhos.

Trecho do livro O Amanuense Belmiro de Cyro dos Anjos

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Num deserto imaginário cabe tudo...

Me fala logo porque o céu é assim azul! Você não me explicou ainda porque a água molha e o vento balança teus cabelos. Quantos grãozinhos assim pequeninos e coloridos de areia cobrem este chão? Como o coração funciona? Porque eu não posso escolher se quero nascer ou não? Hey, mundo escute-me!
Devia ser esse sol, escaldante como ele só. Queria água, comida, atenção. Encontrava-se num deserto imaginário, este é o pior de todos. Havia miragens belíssimas de confidências consigo mesmo. Era segredo, nunca ousou falar isso para as paredes.  Elas nunca entenderiam, eram duras, opacas e brancas demais, o que as deixava muito menos confiáveis.
Olhou para os lados sem saber o que acontecia, era estranho e por dentro se remoia por nada entender direito.  Foi então que por estar num deserto imaginário sentiu-se livre e gritou: Eu tenho todas as dúvidas do mundo! Entusiasmado com sua descoberta sentiu-se bem por saber de alguma coisa.
Descobertas assim tem um ar de incredulidade, sentou no chão e apanhou uma pequena concha. Há que duvide que houvessem conchas num deserto, mas o que você não sabe é que num deserto imaginário cabe tudo... Segurou a pequenina concha marfim entre os dedos sentindo os restinhos de areia caindo da mão, soube que era uma sensação incrível. Ele sentiu. Era inacreditável ter aquela conchinha entre as mãos, ficou contente por ter algo que lhe entendesse e ouvisse. Todas as outras coisas do mundo eram surdas. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Falsa Prisão


Era filha única e pensava que o mundo era muito pequeno. Desde o seu nascimento cercaram-na por uma redoma que além de protegê-la de muitos perigos a manteria fora do alcance dos homens quando crescesse, o que não impediu que mesmo assim fosse vista e escolhida e o noivo, disposto a qualquer sacrifício, se dispusesse a conservá-la em sua cristalina prisão.
 Do pequeno espaço onde se mantinha presa ela via o horizonte e a paisagem ao redor onde as pessoas se moviam fora do seu alcance. Por longo tempo imaginou a liberdade do vento e invejou a trajetória das nuvens.
    Até que inesperadamente resolveu escapar, o que só conseguiria com o impacto de seu próprio corpo arremessado contra as transparentes paredes, mesmo  que para isso se retalhasse entre os cacos.
Foi então que, experimentando o medo e a coragem, verificou surpresa que a redoma, feita de tênue papel, se rompeu ao primeiro contato, deixando-a completamente liberta sem o mais leve ou o menor sofrimento.
      Inteira e sem limites ganhou o horizonte.

Retirado do livro Contos Contidos de Maria Lúcia Simões.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Pequeno anjo sujo de lama


Queria ser pintor. Não foi
Artista que pisava pessoas, sua diversão.
Só sobraram mostras de obrigação
Amostras gratuitas que ninguém pediu.

Amor não é.
Um dia pode ter sido,
Mas hoje não mais.

Queria ser livre. Não foi
Pequeno anjo sujo de lama
E de expectativas dissecadas.
A culpa nunca foi minha.

Não sei seu gênero, e este me afeta
Mas peço humildemente senhorita ou senhor tirania
Vá embora do meu jardim
Eu te disse que era proibido pisar na grama.

Michelle Saimon

sábado, 19 de novembro de 2011

...nem sempre é necessário tornar-se forte.

Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar".
(Clarice Lispector)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Rock Star


Ah, meu querido!
Eu sou apenas mais uma garotinha inocentemente suja
Que pensa que há algum lugar pra ela nesse inferno social.
Tenho uma solidão inútil que não serve nem pra me dar um copo d’água
Esse lápis de olho borrado simboliza toda minha vida,
E eu só desejaria saber o que eu realmente queria.
Mas sabe, qualquer dia desses eu esbarro nessa vontade
Sem pressa, sem pressão
Poeticamente frágil, me desmanchando em lágrimas e milagrosamente viro forte.
Por vezes triste, daqui a dois minutos alegre
Como posso me arrepender?
Desculpe querido, mas agora eu sou uma Rock Star.
Michelle Saimon

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Melancolicamente feliz

Tinha tudo pra dar certo, mas não deu. Era tudo tão simplesmente complicado que dava até náuseas, cheguei a um ponto extremamente enjoativo em que fui capaz de vomitar qualquer satisfação pelo que acontece num dia específico, talvez a vida toda.  Senti que era a única que me contentava com apenas um sorriso que não exigisse nada em troca. Queria ter a falsa sensação de viver num mundo em que todos enxergavam a alma e não uma beleza artificial que só serve para cegar.
Enquanto pensava nisso percebi que estava no meio da rua e sentia agora meus pés molhando numa pequena poça enlameada, o céu estava fechando e sim, era hora de abrir um guarda chuva que espantasse quaisquer pensamentos sem cabimento tais como os anteriores. Todas as reflexões vêm na chuva, mas por quê? Porque não em dias lindos e ensolarados? Enquanto imagino um futuro bom eu preciso ser acertada por gotículas frias e poças semi-enlameadas? Preciso? Não, mas a chuva é o meu refúgio onde eu acompanho seca minha própria fuga.
Gosto de dias chuvosos, nublados e frios. Eles me fazem melancolicamente feliz.


Michelle Saimon

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Não há nada a lamentar sobre a morte,

  assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a sua morte. Não reverenciam suas próprias vidas, mijam em suas vidas. As pessoas as cagam. Idiotas fodidos. Concentram-se demais em foder, cinema, dinheiro, família, foder. Suas mentes estão cheias de algodão. Engolem Deus sem pensar, engolem o país sem pensar. Esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas. Seus cérebros estão entupidos de algodão. São feios, falam feio, caminham feio. Toque para elas a maior música de todos os tempos e elas não conseguem ouví-la. A maioria das mortes das pessoas é uma empulhação. Não sobra nada para morrer.
Charles Bukowski

Passos na calçada

Ela estava ali: A calçada
Por cima dela chovia
Por cima dela passava
Gente, cachorro, gato
Pássaros não, eles voavam.
Sentia falta do tempo que da calçada ao céu era apenas um pulo.
Jump!

Mas agora a torrente de pensamentos pesava.
Vontade louca de voltar para casa, mas alguma coisa impedia
Sabe o tormento que é sentir falta do tempo confuso de ontem?
Viu-se sozinha e para contribuir
Ouvia apenas o som de seus próprios passos
Parada e calada a calçada continuava...

Michelle Saimon

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Trecho do livro Pequenas Epifanias.

Pensamentos matinais, desgrenhados, são frágeis como cabelos finos demais que começam a cair. Você passa a mão, e ele já não está mais ali – o fio. No travesseiro sempre restam alguns, melhor não olhar para trás: vira-se estátua de cinza. Compacta, mas cinza. Basta um sopro. Pensamentos matinais, cuidado, são alterados feito um organismo mudando de fuso horário. Não deveria estar ali naquela hora, mas está. Não deveria sentir fome às três da tarde, mas sente. Não deveria sentir sono ao meio-dia, mas. Pensamentos matinais são um abrupto mas com ponto final a seguir. Perigosíssimos. A tal ponto que há risco de não continuar depois do que deveria ser uma curva amena, mas tornou-se abismo. 

(Caio Fernando de Abreu)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A rotina do perder

Perder é uma palavra tão comum e de uso quase diário por todos nós. Acredito que seja uma palavra que já nasceu conosco. Mas para cada pessoa, a perda se mostra com uma significação diferente.
A perda está tão associada a nossa vida que seria até estranho perder essa “capacidade”. Mas quem de nós pediu esse dom de perder? Que eu saiba ninguém pediu isso!
Acontece que a perda é essencial para o nosso crescimento, seja por nossa vontade ou não. A nossa vida inteira vivemos a perder: São amigos, confiança, parentes, amores, objetos, oportunidades... É que geralmente essas perdas estão associadas a uma alerta do tipo: Fique mais atento e não deixe tal coisa passar, porque você não aproveitou mais? Dê mais valor ao que possui. São muitas questões que a perda, ao que parece faz questão de nos passar na cara.
Outras vezes a perda pode se apresentar menos incômoda e dolorosa e algumas até imperceptíveis a ponto de depois nem pensarmos mais nelas. Um fio de cabelo que cai, a perda do primeiro dente de leite ou aquele primeiro romance infantil.
Não dá para fugir delas. Nós nascemos e morremos sob a ação de perdas. Elas sempre mudam nossas vidas, nem que seja por alguns poucos dias não é mesmo? E ao nascer já começamos perdendo, logo que somos “arrancados” de um lugar mais quente e mais seguro. Lá era mais apertado, mas toda essa imensidão não sufoca mais? E é de lá que saímos perdendo nossas primeiras lágrimas. Na etapa final, começamos então a como se fosse de novo uma criança: perdendo dentes, temos menos força pra enfrentar ainda o mundo e precisamos de cuidados. Os cabelos agora brancos ou raros. É perdida toda aquela força juvenil que no passado proporcionava coisas tão incríveis! E então finalmente, perdemos o nosso ultimo sopro de vida.
Michelle Saimon

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Mente insone


Não havia motivo para que fosse assim tão inconstante. Todos os dias ao deitar a cabeça no travesseiro uma nova torrente de pensamentos adentravam no quarto. Não era, tampouco, de se admirar ou arregalar os olhos com o maquinário diário das ilusões.
Acostumada estava com a rotina noturna da insônia. Febrilmente insone. Debilmente balançada por devaneios indomáveis. Mas porque tiravam tanto assim seu sono? Enquanto suava frio, a mente ainda cheia de adrenalina. Revirava-se, procurava soluções que levassem à calma e nada. Não era por nenhum barulho – a casa toda dormia, o que impedia seu descanso era a cabeça cheia de inquietações rotineiras.
Aceitava que a mente humana é uma companheira altamente traiçoeira.  Ela te dá um tapete voador para que você possa sentir-se livre, ilimitado. Enquanto a noite passa, você conhece mundos antes inimagináveis, vontades antigas se realizam. Alguns te tiram o sono: altamente cruéis em mostrar nossos piores medos...
Mas basta que qualquer interferência venha do “mundo exterior”, para que essa mente venha a puxar-lhe o tapete. Pronto, pouso forçado na monótona vida terrena. Havia tempo que estava apenas conectada ao real, acordada podia ver uma pequena flor violeta desabrochando perto da janela. Era como se fosse ontem, então chovia promessas.
Talvez algum dia confessaria que havia feito milhões de tentativas apenas por continuar sem tentar. Por enquanto só queria tomar um café amargo por que a mesma velha rotina não iria tardar.

Michelle Saimon

domingo, 16 de outubro de 2011

Esquecimento de outras estações

Quem sabe seja defeito daquele tempo harmoniosamente nublado que se passou. Gi nunca entendeu porque o tempo levava como folhas ao vento aquela coisa gostosa do passado. Era como se o dia nublado acabasse, mas a neblina continuasse tapando tudo. Até agora não sabia por que, mas decidira aceitar.
O verão insistentemente chegava. Era tempo de colecionar cores, aromas e sabores achados nas outras estações. Agora era até difícil de concentrar-se, sumiram as cores. As cores mortas são mais lindas, mas delicadamente ásperas. Por mais que se aquecesse, aquele toque anestesiante de outras eras ainda ia tapar-lhe os olhos.
Não a culpo. Ninguém sabe o peso que é apenas saber sentir sem nunca ter sentido nada. Mas ela nem se importava; nunca fez sentido mesmo. Mas Gi já havia aceitado que era mesmo como uma bailarina de pernas quebradas. Não mais voava, aceitara a condição de borboleta sem asas.
Desdobrou a sua vida congelada e a levou para descansar ao sol.

Michelle Saimon


sábado, 15 de outubro de 2011

Verbo Ser - Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer? 
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
 
Que vou ser quando crescer?
 
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
 
Sem ser Esquecer.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sonhar ou não sonhar, eis a questão


Alguns dias bastam tocar na vida que ela se dói. Dói-se e dói n’agente também.

Acabamos vendo o contrário do que queríamos que acontecesse. Perguntamo-nos por que não aconteceu do jeito que a gente queria, com sabor e leveza de vento num fim de tarde daquele mesmo jeito que se sonhava. Talvez seja porque a vida, aquela de verdade mesmo, não tem nenhuma noção do que é dormir: ela ruge, grita, corre, transborda, se espedaça e se auto-arruma...! Simplesmente não sobra tempo e talvez por isso não sonhe. Mas sabe, é a Vida real como próprio nome já diz. É real demais. Mas se for não quer dizer que não se possa sonhar. 
O único empecilho é que o real vai exigindo uma série de coisas, obrigações, paciência, pessoas... Talvez até por isso o verbo sonhar seja o mais preferível e entendo por que: Ele é mais compreensível e mais alegre por mais maluco que ele seja. Talvez porque o sonho é um conforto de mentira e isso implica em várias situações que no fim quando não te ajudam, o máximo que eles podem fazer é colocar o pé na frente quando você estiver passando para que você tropece e finalmente dê de cara no chão.
Mas que graça teria se não pudéssemos sonhar? A realidade é dura como pedra. Em sua frieza de gelo, congela os neurônios e não dá para pensar com tanta lucidez assim. Então sonhemos acordados, andando, sentados, dormindo, de pé. Na rua, no parque, na cama, na casa, no coração, na alma ou apenas nos olhos.
Sonhemos porque não há nenhum remédio que possa por um momento mascarar o peso de existir. Não há remédio mais eficiente do que sonhar. Pode ser um sonho impossível - o que geralmente sempre é. Desgarrado, amedrontado, embelezado de desejos, perfeito como ele mesmo.
Sonhemos porque o impossível é a perfeição do existir.


Michelle Saimon

domingo, 9 de outubro de 2011

Namorados

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
-Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
A moça se lembrava:
-A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
-Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
-Antônia, você é engraçada! Você parece louca.
(Manuel Bandeira)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Idealização da humanidade futura





Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímpetos impuros
Tomara etnicamente irracionais!

Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...

(Augusto dos Anjos)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Retrato

"Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas; 
eu não tinha este coração que nem se mostra. 
Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil: 
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
(Cecília Meireles)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

E sim porque aprendi a ser só...

Nunca fui como todos
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só...
(Florbela Espanca)

domingo, 25 de setembro de 2011

Fernando Pessoa: Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



(Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Lágrimas de sangue

Hoje ela decidiu levantar-se cedo, mas era um cedo de quem acredita que já era muito tarde. Mas quem é ela? Bem, nem eu mesma que a imagino sei, mas possa ser que eu a conheça muito bem.  Penso que devia não pensar em nada, apenas observá-la na ânsia meio morta de quem sabe compreende-la.  Agora eu a vejo mais claramente, acho que posso até senti-la, Mas não sabendo o que ela sente me pergunto se é possível sentir o indefinível que é não saber o que se sente, de qualquer forma me vi sentindo o que era indefinível pra mim, mas que ela conhecia muito bem. De onde eu estava pude ter uma visão daquele quarto cheio de sua brancura vazia, tão, mas tão vazia quanto aquela moça que ali estava a derramar suas lágrimas de sangue. Pois até a única coisa que ainda lhe havia dentro, ela estava agora a derramar em desespero, tornando-se ainda mais oca tal qual aquele claustrofóbico quarto.
Sente se presa. Mas onde? Ou melhor, ela está realmente presa? Não sabe de nada, apenas quer fugir, mesmo não sabendo de que maneira ou para onde. Não enxerga a saída mesmo com a porta de sua prisão escancarada, pode ser que ela não veja, pois lá fora se encontrava muito mais claro a ponto de não ser possível suportar, e lhe ofuscando o resto que ainda havia de brilho em seus olhos. Talvez tenha medo, tão grande este de encarar seus próprios medos e fugir de vez desse aprisionamento em que se encontra a triste moça a chorar lágrimas de sangue...
Por que tem medo? Simples, sente o fantasma do fracasso arrastando-se para perto, perto demais pra que se sinta à vontade. Foi ele, diz ela, foi ele o culpado de tudo isso! E chora de novo suas lindas lágrimas de seu puro e púrpuro sangue. A cada gota que cai, tão lentamente na sua lentidão calculada, a cada grão de poeira que desce levemente para se acomodar no quarto, a  cada entrada de oxigênio em seus pulmões, a cada noite em que escureceu e uma luz não foi acesa ela se sente como se quisesse se livrar logo de tudo isso. Então finalmente Ela o fez: Abriu a janela de sua alma e num vôo sem asas, flutuou para longe dali.

Michelle Saimon

domingo, 18 de setembro de 2011

Alívio em gotas


Amar chuva é amar ao alívio

Amor a um doce delírio que desce em pingos.
Convida-te a pensar na vida, na morte,
Sobre tudo, talvez no nada
Com seu cheiro melancolicamente doce de terra molhada.

Tem cheiro de desejo de regressar às tardes de infância primaveris
Que me incita a esses pensamentos desenfreados
Agora quase infantis.
Nesse instante sei, não estou mais com os nervos à flor da pele.
E sim com a vida a flor da mesma.

Mas acredito agora que não sejam mais flores.
Serão espinhos? Ah com certeza, espinhos sim.
Aos montes, às toneladas
Aos poucos maltrata
Esperando só para sangrar as esperanças restantes desse cansaço.

O céu e a alma escurecem
Vem a chuva, e junto com ela a vontade de se libertar, sabe-se lá de quê!
Quebrar as grades, derrubar portas, romper as algemas e tudo mais que prenda.
Deixar que seus pingos desçam pelo corpo como se fosse a última chuva
Que os desertos agora merecem.


(Michelle Saimon)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Fluxo de idéias descontroladamente desconexas


Há dias em que as palavras escapolem, não podendo controlar. Elas simplesmente descem em um fluxo incontrolável de realidade misturada com emoções.  É que o subconsciente escandaliza as portas do entendimento, o que de nada adianta; continuo muda num monólogo perturbador e o prazer do desabafo por uma escrita.
       São como emoções assim, descabidas, desenxabidas, desesperadas, a procura de uma forma de se comunicar...
Palavras de uma intolerável revolta pelo que não existe.  É que são assim, de uma serenidade angustiosa, misturada a uma turbulenta indignação formada por paz.
Palavras assim, desconexas, irremediavelmente confusas, só gritam, sem nada dizer. Já não sei fazer nada a não ser sentir profundamente o que não se devia de maneira nenhuma ser sentido.
Tenho nos meus sentidos o alerta de que sentir às vezes torna-se algo tão perigoso, quanto o gesto de apenas deixar de sentir. Como se não bastasse o perigo de viver, ainda agora me aparece o perigo que é o sentir.
Então esqueço agora o sentir, esqueço agora o que é viver. Vou apenas escrever minhas palavras desconexas. Mas, ora essa! Escrever já não é um gesto de sentir e viver? Não sei, prefiro nem pensar nisso. Vou apenas deixar que inunde todo o meu ser com fluxo de idéias descontroladamente desconexas.
(Michelle Saimon)



quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A descoberta do Mundo nas linhas de Clarice Lispector!


Hoje vou falar sobre uma escritora que eu admiro tanto, que me faltam palavras elogiosas para descrevê-la. Então, isso vai ser uma tentativa. Hahaha!   Vamos lá?
Ela é Clarice Lispector. Quem nunca ouviu falar dessa super escritora?  Quem nunca se identificou com o que ela escrevia? Clarice é isso, emoções escritas, que grudam na alma da gente. Simplesmente viciante!
Clarice nasceu na Ucrânia no ano de 1926, mas mudou-se com seus pais para o Brasil com apenas dois meses de idade, naturalizando-se brasileira. Sempre que era questionada sobre sua nacionalidade, Clarice dizia que não tinha nenhuma ligação à Ucrânia, e sua verdadeira pátria era o Brasil.
Passou boa parte de sua infância em no Bairro de Boa Vista, em Recife. Onde seu imenso talento dava suas primeiras manifestações, Clarice começou a escrever logo após ser alfabetizada. Falava vários idiomas, entre eles o francês e o inglês.
Aos 15 anos, Foi morar no Rio de Janeiro com a família, e estudou numa escola primária na Tijuca, até ir para um curso preparatório na Faculdade de Direito. Foi ai que ela descobriu a literatura, depois de ficar chateada com algumas das teorias ensinadas no curso.  Seu primeiro conto, Triunfo, foi publicado na revista Pan no dia 25 de maio de 1940. Clarice tinha então 19 anos. No mesmo ano, Clarice foi chamada para trabalhar na Agência Nacional, que era a responsável por distribuir notícias a jornais e emissoras de rádio.
Seu primeiro romance foi Perto do coração selvagem, publicado em dezembro de 1943. Foi escrito quando Clarice contava com apenas 19 anos. O livro causou espanto na crítica, talvez por ter um caráter existencial totalmente inovador, ou pelo seu estilo solto, essa quebra de seqüência – começo, meio e fim -, o constante uso de metáforas, etc.
O que diferia muito da literatura da época era regionalista, ou seja, com personagens e histórias que denunciavam o descaso social do Brasil.
Mas após as críticas e surpresa do público, seu talento logo foi reconhecido. Em outubro de 1944, o livro Perto do coração selvagem ganhou o prêmio da Fundação Graça Aranha de melhor romance de estréia.
Clarice também foi Colunista do Jornal do Brasil, do Correio da manhã e do Jornal da Noite.  Onde suas colunas eram destinadas ao público feminino, e abordava assuntos como comportamento, moda e beleza.
Ao todo, Clarice escreveu mais de 30 livros, de uma originalidade única que só ela sabia ter. Mas não basta que você só leia Clarice, a escrita dela é muito mais que isso, e necessário que você a sinta. Sinta com o mesmo prazer que se sente ao receber um abraço inesperado ou o prazer de consumir uma fruta direto no pé. É uma escrita vem para desvenda nossos anseios e sentimentos mais íntimos. Simplificando: A escrita de Clarice não tem definição, é apenas o prazer de mergulhar no mundo indefinível das páginas de um livro dessa grande escritora. Então, ao terminar de ler esse post, porque não vai ler, não melhor, Sentir Clarice? Descubra a Legião estrangeira por trás de suas palavras. Tenho certeza que você vai adorar!
Clarice Lispector

         “(...) Nasci para escrever. Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo.” Clarice Lispector

Bom foi uma pequena Biografia sobre a autora, e neste Link você encontra uma lista com suas obras: http://www.releituras.com/clispector_bio1.asp
Até Mais! ;*

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A alma da gente,



como sabes, é uma casa assim disposta, não raro
com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras,
sem janelas, ou com poucas e gradeadas, à semelhança de conventos e prisões.
Outrossim, capelas e bazares, simples alpendres ou paços suntuosos.

(Machado de Assis)