quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Lágrimas de sangue

Hoje ela decidiu levantar-se cedo, mas era um cedo de quem acredita que já era muito tarde. Mas quem é ela? Bem, nem eu mesma que a imagino sei, mas possa ser que eu a conheça muito bem.  Penso que devia não pensar em nada, apenas observá-la na ânsia meio morta de quem sabe compreende-la.  Agora eu a vejo mais claramente, acho que posso até senti-la, Mas não sabendo o que ela sente me pergunto se é possível sentir o indefinível que é não saber o que se sente, de qualquer forma me vi sentindo o que era indefinível pra mim, mas que ela conhecia muito bem. De onde eu estava pude ter uma visão daquele quarto cheio de sua brancura vazia, tão, mas tão vazia quanto aquela moça que ali estava a derramar suas lágrimas de sangue. Pois até a única coisa que ainda lhe havia dentro, ela estava agora a derramar em desespero, tornando-se ainda mais oca tal qual aquele claustrofóbico quarto.
Sente se presa. Mas onde? Ou melhor, ela está realmente presa? Não sabe de nada, apenas quer fugir, mesmo não sabendo de que maneira ou para onde. Não enxerga a saída mesmo com a porta de sua prisão escancarada, pode ser que ela não veja, pois lá fora se encontrava muito mais claro a ponto de não ser possível suportar, e lhe ofuscando o resto que ainda havia de brilho em seus olhos. Talvez tenha medo, tão grande este de encarar seus próprios medos e fugir de vez desse aprisionamento em que se encontra a triste moça a chorar lágrimas de sangue...
Por que tem medo? Simples, sente o fantasma do fracasso arrastando-se para perto, perto demais pra que se sinta à vontade. Foi ele, diz ela, foi ele o culpado de tudo isso! E chora de novo suas lindas lágrimas de seu puro e púrpuro sangue. A cada gota que cai, tão lentamente na sua lentidão calculada, a cada grão de poeira que desce levemente para se acomodar no quarto, a  cada entrada de oxigênio em seus pulmões, a cada noite em que escureceu e uma luz não foi acesa ela se sente como se quisesse se livrar logo de tudo isso. Então finalmente Ela o fez: Abriu a janela de sua alma e num vôo sem asas, flutuou para longe dali.

Michelle Saimon