domingo, 16 de outubro de 2011

Esquecimento de outras estações

Quem sabe seja defeito daquele tempo harmoniosamente nublado que se passou. Gi nunca entendeu porque o tempo levava como folhas ao vento aquela coisa gostosa do passado. Era como se o dia nublado acabasse, mas a neblina continuasse tapando tudo. Até agora não sabia por que, mas decidira aceitar.
O verão insistentemente chegava. Era tempo de colecionar cores, aromas e sabores achados nas outras estações. Agora era até difícil de concentrar-se, sumiram as cores. As cores mortas são mais lindas, mas delicadamente ásperas. Por mais que se aquecesse, aquele toque anestesiante de outras eras ainda ia tapar-lhe os olhos.
Não a culpo. Ninguém sabe o peso que é apenas saber sentir sem nunca ter sentido nada. Mas ela nem se importava; nunca fez sentido mesmo. Mas Gi já havia aceitado que era mesmo como uma bailarina de pernas quebradas. Não mais voava, aceitara a condição de borboleta sem asas.
Desdobrou a sua vida congelada e a levou para descansar ao sol.

Michelle Saimon