quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Falsa Prisão


Era filha única e pensava que o mundo era muito pequeno. Desde o seu nascimento cercaram-na por uma redoma que além de protegê-la de muitos perigos a manteria fora do alcance dos homens quando crescesse, o que não impediu que mesmo assim fosse vista e escolhida e o noivo, disposto a qualquer sacrifício, se dispusesse a conservá-la em sua cristalina prisão.
 Do pequeno espaço onde se mantinha presa ela via o horizonte e a paisagem ao redor onde as pessoas se moviam fora do seu alcance. Por longo tempo imaginou a liberdade do vento e invejou a trajetória das nuvens.
    Até que inesperadamente resolveu escapar, o que só conseguiria com o impacto de seu próprio corpo arremessado contra as transparentes paredes, mesmo  que para isso se retalhasse entre os cacos.
Foi então que, experimentando o medo e a coragem, verificou surpresa que a redoma, feita de tênue papel, se rompeu ao primeiro contato, deixando-a completamente liberta sem o mais leve ou o menor sofrimento.
      Inteira e sem limites ganhou o horizonte.

Retirado do livro Contos Contidos de Maria Lúcia Simões.