segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Remendando Memórias - Parte I


Passava horas a fio a remendar velhas lembranças. Com suas mãozinhas enrugadas e trêmulas era difícil fazer o fiozinho prateado entrar na agulha, mas mesmo assim continuava. Era uma tarefa quase impossível, as memórias vinham em forma de tecidos velhos e gastos pelo tempo, qualquer movimento mais brusco e via o velho tecido se desfazendo em mil fiapos que se libertavam levemente em direção à janela aberta. Pensava que era tudo culpa dela. Ah, essa janela que lhe deixava escapar os fiapinhos de memória! Já haveria trancado ela se não fosse a claridade que proporcionava para fazer seus tão preciosos remendos. Seus olhos por trás do grosso óculos já não eram mais os mesmos...
Qual remendar primeiro? Eram tantas especiais. Pensou e com a sua mãzinha confusa passou a mão pelos velhos tecidos e pegou o mais prejudicado pelas traças. Continuava uma bela lembrança, se decidiu sorrindo que aquela seria a última a receber seus cuidados. Escolheu outra, esse tão igualmente importante quanto a anterior, era a memória do dia que seu velho chegou sorrindo em casa, nunca esqueceria aquele sorrisinho que faziam as rugas ao redor dos olhos ficarem ainda mais salientes.  Vinha com uma caixa toda enfeitada na mão. Surpresa! Era uma máquina de costurar memórias; a mais linda e amável de todas as outras que um dia poderia ter existido. Mas era rara, poucas pessoas tinha a chance de ter uma máquina para remendar suas melhores lembranças. E poucas pessoas tinham esse amor de ruguinhas salientes ao redor dos olhos.