terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Remendando Memórias - Parte II

*Parte I aqui
Olhou com amor o pequeno tecido e direcionou sua atenção para a mesinha. Ela continuava lá, sim! A máquina de remendar memórias, agora carcomida pela insistente ferrugem que o tempo põe nas coisas. Era muito velha; a máquina, as lembranças, quem as costurava. Será que iria conseguir terminar seu trabalho? Com essas mãozinhas enrugadas e trêmulas, com essa máquina velha enferrujada e ainda mais essas memórias semi destruída pelas traças! Demoraria demais, devia haver outro jeito.
Foi lentamente ao armário e pegou alguns frasquinhos de vidro. cobriu se toda com preciosos óleos anti-ferrugem e bebeu um gole generoso de água colhida em uma fonte da juventude que jorrava de sorrisos esquecidos. E agora, sentia-se melhor? Não sabia, era estranho. Porque se sentira assim se só queria ver suas memórias tão vivas de novo? Saiu decidida em direção ao jardim com seus passinhos apressados, mas tristes e se sentou em meio as folhas que caiam das árvores. Ficou por um bom tempo, o céu se pintava levemente de rosa. No dia que se conheceram  céu estava assim. Lembrava bem ainda, essa foi a memória que conseguiu remendar melhor. Tinha uns pequenos buracos, isso não a desanimava.
A noite já caía, precisava fazer o chá. Tomaria sozinha, sem poder ver as ruguinhas salientes ao redor daqueles olhos.  Não iria passar na padaria e trazer os biscoitos, antes de fechar os olhos ele dissera para que ela nunca deixasse as traças comerem completamente as memórias, desejou que ela ficasse bem, e explicou sorrindo que fazia parte da vida, não queria vê-la chorar. Ela tomaria seu chá sozinha dessa vez, com suas mãozinhas enrugadas já antes mencionadas, depois voltaria e não, não desistiria iria consertar aquelas memórias. Nesse momento já não enxergaria mais nada, os grossos óculos, a janela. Nada mais adiantava, nascia uma fonte cristalina e salgada de seus olhos cansados.