sábado, 3 de março de 2012

Humanamente afetável


Lançando-se ao desconhecido, ao infinito e indizível espremedor de corações. Que aperta tanto esse pobre ser pulsante que chega a dar dó. Espreme e guarda teu líquen para a posteridade, esse líquido de pouco sabor! Esse fel açucarado demais. Guarda, que mesmo assim estas estrelas artificiais e pálidas que brotam mansamente das janelas nunca ofuscarão o que tendes de melhor.
Eu me contei que tinha sonhos inexpressivos dos quais seus significados nunca encontraremos nos livros. Poetas e seu admirável poço de sabedoria não conseguirão descrever inteiramente porque os sonhos existem ou porque a maioria deles gosta tanto de massacrar os corações mais frágeis. Mas sentem, algo me diz que sentem essa inquietação de não saber o que se sonha ou o que se sente e não conseguir descrever. As palavras às vezes são tão limitadas!
Limitadas ou não ai de mim se as palavras não existissem!  Se existem palavras o alívio logo vem vindo de passagem, aí é que eu respiro seu ar. Senti o cotidiano em seu ritmo descaradamente abalável. Eu vi que era cinza com uma gota de azul. Foi ai que me permiti diluir seu azul para tornar o cinza de outra cor. Não se misturavam e sim se complementavam. De qualquer modo se diluía em mim o espectro da vida.
Como não sentir se agora pesava em minhas costas? Mas havia algo mais pesado que isso. Eram os apegos pregados no fundo da mochila, era a história repetida tantas outras vezes, era o mundo em minhas costas. O universo batendo asas na palma de minha mão depois de escrever no vento que eu seria frágil o bastante para aguentar.
Aguentei como disseste. Depois de uma respiração sorriu-me e minha boca sentiu o hálito sereno do universo repuxando-a num sorriso. Senti-me calma no momento de sua fingida despedida. Volta logo universo, que dou-te um cálice do meu mais puro sangue para que seja bom como tu dizes. Ninguém percebe nada e se percebe logo esquece. Mesmo assim desejarei profundamente esse hálito fresco convertido em sorrisos. O que mais posso fazer? Sempre serei humanamente afetável por despercebidos eventos do cotidiano