sexta-feira, 9 de março de 2012

Um Mundo em conserva

No finalzinho de uma das aulas de hoje o professor virou-se para os alunos e pediu uma coisa que era desafio para muita gente: falar um pouco sobre si próprio. Eu não sei fazer isso, então não sei como faço. Nesse pedido há um grande perigo e dificuldade daquelas de fazer suar as mãos e tremer a caneta. Exagero? Sempre. Mas porque esta dificuldade? Se souber me diz pois não conheço esse mistério e nem me sinto tão peixe a ponto de mergulhar neste oceano indiscreto.
Eu não sei e nem posso responder com totalidade esta questão que quer destampar meu mundo em conserva. Olha bem, mesmo que eu abrisse esse pote e me banhasse em teu líquido, eu não saberia como responder esta pergunta que vem eriçando pelos e congelando mãos desde que o primeiro “quem é você?” foi perguntado.
Embora sejamos as pessoas que mais sabem o que habita e acontece nessa caverna interna que chamamos de eu, nós temos medo de penetrar a imensidão escura e ver-se de encontro com os morcegos que nos pegam pelo pé e nos arrastam a nossos abismos. Fugir ou enfrentar e depois pular por si próprio no desconhecimento? Decida e não me leve, decidi que ficarei na porta a esperar sentada em algum lugar. Tenho medo e admito que há um receio no conhecimento do que chamo de eu.
E se eu descobrir que eu não era o que queria ou perceber que eu na verdade não era eu? Poderia conviver com uma falsa piedade individual? Estou questionando demais, bem sei, mas se fui questionada e pega de surpresa na minha infantil segurança que mal há? Então agora sou eu que me cobro respostas e me pergunto: Quem sou eu? Não diria mesmo que soubesse a fundo, nem a mim, nem a você e se você souber finja que não sabe, eu não suportaria descobrir sabe-se lá o quê. É perigoso e intimidador demais. Desvenda-me, desvende-se e desvendaremos, ou não. Somos fruto da inexplicável incerteza e por via das dúvidas nascemos cheios delas e de vontade de saber o que somos. Somos um algo que não se explica, se vive, se sente, se desespera, se é humano.
Eu tenho uma chave sem porta dentro de mim e sei que em você deve existir algo parecido. Se ouso entrar em minha caverna cheia de pedrinhas lisas posso me perder e nunca mais retornar. Estarei eu tão gravemente enganada? Sabe-se lá! Mexeram com meu desequilíbrio habitual a partir do momento em que fui questionada.Por garantia, deixarei meu mundo em conserva e nem ouso abri-lo completamente, tenho medo que estrague.