quinta-feira, 5 de abril de 2012

Asas quebradas

Vendo-a assim tão imóvel e infeliz, eu vou dizer o que ela realmente era: uma constante e indefinível metamorfose. Naturalmente mistério, sopro do encanto divino. Era uma borboleta recém saída de um casulo incerto. E era linda, linda, linda. Mas tinha receio de conhecer de perto a encantabilidade do céu. Por medo de voar voltou ao seu casulo e conformou-se a esperar passivamente o atrofiamento de suas asas e a volta a sua forma rastejante anterior. Transformara-se em lagarta amante de uma falsa terra firme. Tinha medo de voar, mas se soubesse quantos perigos a terra esconde!
Era lagarta rara, e por medo fora escolhida para o peso do mundo. Não teve coragem de ser a escolhida dos ares, mas acabara sendo a escolhida de um menino, desses assim banguelos e sardentos com as mãos sujas de meninices.
Ela se tornara tão deprimidamente linda e rastejante dentro daquele pote turvo de vidro de azeitonas! E desde então o menino a amava com um amor que não daria a mais ninguém e nenhum outro ser sentimental poderia sentir. Era o amor de um jeito tão egoísta, como o mais puro dos amores é capaz de ser. Ele justificava dizendo que a tinha encontrado, portanto era de sua propriedade. Ele era um menino que não sabia que é impossível se obrigar a amar. Ele prendera a lagarta por amor, e por isso se sentia o ser mais sublime que já foi inventado. Acreditava que ela seria feliz naquele pote de azeitonas, isso era engano, pura inocência do gostar.
Quanto a ela, desde então chorava frequentemente desperdiçando suas invisíveis e dolorosas lágrimas de lagarta. Ela não o amava. Ela amava a liberdade, o menino era a prisão turva do vidro. Como ser feliz com a possibilidade de só poder ver a vida de dentro de um pote? Questionava o tempo inteiro, mas respostas eram impossíveis de serem ouvidas, o vidro abafava o som tanto quanto abafava sua vida.
Agora, por medo de ser eternamente prisioneira, desejou ser borboleta com medo do céu. De tanto desejo, desenvolveu asas quebradas, daquelas que só o inconsciente tem.