quarta-feira, 11 de julho de 2012

Falta de ar




Parecia que aquilo jamais teria um fim. Um Blá blá blá onde não existia ninguém. O tic tac já nem lhe doía mais a cabeça, incomodava o estômago cheio de porcarias entupidas de maionese, agora mais cheio ainda de todos aqueles números que pareciam ter adquirido vida própria e papéis abarrotados de palavras desinteressantes. Um café com sua fumaça explorando o ambiente, entrando pelas narinas e já não lhe causava mais o antigo desejo.
Tentou olhar para a janela, onde do lado de fora um moço que deveria ter seus quase vinte anos limpava aqueles vidros já limpos. Tanta mania de perfeição para o que não importa tanto... Mas a monotonia daquele serviço o convidava, queria uma ocupação assim, pelo menos seria acariciado com o vento. Ah, nunca mais havia parado para sentir! Se algum conhecido seu de repente ouvisse isso, imediatamente o culparia por ser tão mal agradecido com a sorte e lhe diria com a maior convicção que alguém pode ter: “Ora, mas você tem o melhor emprego do mundo!” Quando era mais moço realmente estava convencido disso, mas hoje? Queria apenas paz em vez de viver vendo o mundo apenas pela janela de um escritório e no final do dia entrar em sua caixa que solta fumaça e vive infectando o ar. Muitos matariam para ter um carro daqueles, pois bem, ele não o queria mais, não passava de uma caixa envenenadora!
Despertou desse minúsculo coma com o barulho do telefone tocando. Sempre eles! Nunca paravam, nunca davam trégua. A gravata agora começava a apertar seu pescoço, e ele nem se lembrava de tê-la apertado tanto. O ar-condicionado ligado, congelando a sala, mas uma gota de suor descia ardente em sua testa, passou o lenço, veio outra. Desespero, sensação de aprisionamento e o tic tac cada vez mais alto ensurdecendo e derrubando seu muro de segurança forjado. Alguém lhe disse que teria reunião às 16:00. Que horas seriam agora? Teria tempo? Teria vontade? O que ele tinha? Uma sensação horrível de estranhamento ao normal, ao que fizera durante anos. Acabara esquecendo-se do vento, o que era um crime.
A pressão foi subindo e a raiva de tudo aumentando, gritara para si mesmo “chega!”, pelo menos por hoje, sabia que amanhã retornaria, era mais forte que sua indignação. Saiu apressando pela porta e foi descendo as escadas como um louco, não precisava de elevador hoje, não mesmo. Conseguia ver a porta chegando, e o alívio se instalando. Jogou a gravata em qualquer lugar, desabotou a camisa que geralmente usava tão caprichosamente arrumada, mas que agora estava molhada de suor, era sua agonia saindo pelos poros. Andou à esmo por um incalculável tempo, viu o por do sol, fez promessas que não cumpriria a si mesmo, cantou uma música que há anos não ouvia. Por fim, acabou voltando para casa como um filho pródigo, se jogou no sofá e sentiu-se extremamente feliz.