sábado, 29 de dezembro de 2012

Urgência

Como se com seus passos rápidos fosse conseguir impedir o fim do mundo que aconteceria quando o universo começasse a cair. Ou melhor, quando a tarde começasse a ser tarde o suficiente a ponto de enfim começar a colorir-se. Talvez até conseguisse chegar a tempo. Talvez, mas algo mais algo mais forte que a sua tentativa de controle do tempo palpitava em seu íntimo insinuando que estaria sempre atrasada para alguma coisa e perder algum pedaço de alguma coisa que lhe seria como uma pontadinha dolorosa.
Era sempre assim. Sempre que os ponteiros iam deitando, sua ansiedade ia escorrendo salgada como o suor que lhe descia da testa. Por dentro, o medo de perder qualquer segundo que fosse, por fora, já ia correndo na mesma hora de todo dia à procura de sua bicicleta onde depositava em seu cesto todos os agrados e conquistas daquele dia. Saia então pedalando o mais rápido que conseguia à caminho da felicidade que encontraria logo após a estrada. Diferente das outras pessoas ela já sabia muito bem onde essa dita cuja morava e que cara tinha. Ia indo, estrada ventania que fazia com que seus cabelos se desprendessem do já frouxo laço que prendia os cabelos crespos durante o percurso.
Partia então estrada afora, fora de si, fora do mudo, quase flutuando, onde a única coisa que ainda sentia além da vontade de chegar logo era sua ansiedade inundando seu corpo e  descendo em gotículas salgadas pela sua testa.  Finalmente chegara, abrira a porta e o encontrara como sempre, naquele horário, à sua espera a construir castelos e carregando o sorriso mais lindo do universo. Como foi seu dia? Perguntara após ser coberta por abraços e beijos. Agora tudo ia bem, bem, bem...