domingo, 1 de setembro de 2013

Ao mordiscar instintos, à ouvir a vida...



Só porque conseguia respirar aquele ar infectado de vida pensava que a vida era fácil. Só porque decidiu sentir, sua estrela cadente caiu e esmigalhou suas convicções nem sempre tão certas. Não me via, mas eu o observava em seu estado de obsorvido por algo invisível a mim. Eu não sei por que deu um leve sorriso por alguns segundos, sorriso para algo de novo invisível a mim. Eu não sabia de nada a seu respeito e me propunha a adivinhar e a pegar as coisas que ele soltava ao respirar.
Estava parado, mas sei que sua mente estava em intenso movimento. Como sei disso? Apenas sei, sem saber como é que sei. Sei que ouvia música. Se for a música harmoniosamente turbulenta do universo ou se era uma música qualquer, acho que isso não importa agora. A esta altura já não sei mais o que importa, acho que ele também não sabe, se sabe esconde bem na sua postura de ser humano com fones no ouvido e comendo um pão com qualquer coisa olhando distraidamente para a rua.
Aí eu chego ao ponto: Ele era tão distraidamente corajoso a ponto de se deixar de morder seu pão com qualquer coisa e começar a mordiscar seus instintos. Alguns minutos depois ele já dilacerava, sem culpa. Como ter culpa se você não se perceber culpado? Ele não tinha culpa por morder seu instinto.
Uma vez dilacerado, agora ele tinha o instinto da falha, aí é que ele se tornou o mais admirável ser, ele havia concebido o instinto verdadeiramente humano e este se espalhava por sua camiseta, num lugarzinho do dente, em todo o seu eu.
Eu tinha dúvidas de sua humanidade, de sua realidade. Mas e se ele for um gênero melancolicamente incompreendido? Se ele sofrer? E esse sorriso que vi no seu rosto de poucos segundos? E seu ato de respirar? Ele era humano, ele vivia os riscos de se ser assim.
Agora ele se precipita em passos indecisos para fora da calçada. E se enquanto ele atravessa a rua ele seja atropelado por uma realidade em alta velocidade? Se nesse momento ele tirasse o fone, ouviria ele os ecos do passado? E se nesse dia ele decidisse não sair de casa a comer um pão de qualquer coisa, ouvindo a música misteriosa do universo a mordiscar seu próprio instinto? E se esquecermos as perguntas? Encontraremos a calma, eu e o desconhecido. Ele atravessou a rua sem que nada extraordinário acontecesse, ele nem se deu conta. Foi quando um errante balão branco veio de outras eras para lhe acariciar os pés e levantá-lo pela mão. Pela primeira vez em seu dia ele cedeu a algo, não questionou, nunca questionava. Se acomodou e deixou que a mente, o balão e o vento lhe guiasse para longe demais para se saber onde fica. Mas isso é maior do que as palavras que eu conheço para descrever. Até que finalmente chegou ao outro lado da rua e o sinal esverdeou outra vez.