quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Sustos da vida


Direi até minha última palavras em gotas: Não tenho estado preparada assim pros sustos da vida, não. Se estivesse, não seriam sustos, só acontecimentos. Não pretendo ter previsões. Quero o que vai além das agendas, dos números.
Ai que susto que a vida anda me causando! Quase não consigo pregar-lhe peças. É que este coração vive quase sempre palpitando, tem pressa em bater e sem nem pensar anda dizendo que a calma não lhe interessa. Não acha que correr assim seja desperdício de forças. É renovação.
Se não fosse assim, morreria aos soluços, ou talvez com um lenço na ponta dos dedos, coçando as costas cinza e lisas do tédio. Mas o susto é o que move, é o que se fantasia de vida com suas máscaras macabras ou plácidas. Linda, feia, serena, agitada... De boca vermelha e dentes arreganhados. Às vezes com um sorriso.

Esse músculo, que vive batendo aqui dentro destas paredes, quer apenas ser surpreendido com uma chuva que deixe úmido esses dias em que o que se vê são pessoas tão secas. Encharque-as também, molhe-as por dentro, de modo que não sequem mais. Que o céu nos assuste com um raio, que acerte nossas mentes. Um raio que desça intranqüilo, quando as luzes já estiverem apagadas, assim seu clarão vai enrubescer as outras luzes com tanta beleza. Venha enquanto a maioria dos homens quietos ou não sonham. Que caia gritando que o amor é doença contagiosa por olhar.