sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Idealização da humanidade futura





Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímpetos impuros
Tomara etnicamente irracionais!

Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...

(Augusto dos Anjos)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Retrato

"Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas; 
eu não tinha este coração que nem se mostra. 
Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil: 
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
(Cecília Meireles)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

E sim porque aprendi a ser só...

Nunca fui como todos
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só...
(Florbela Espanca)

domingo, 25 de setembro de 2011

Fernando Pessoa: Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



(Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Lágrimas de sangue

Hoje ela decidiu levantar-se cedo, mas era um cedo de quem acredita que já era muito tarde. Mas quem é ela? Bem, nem eu mesma que a imagino sei, mas possa ser que eu a conheça muito bem.  Penso que devia não pensar em nada, apenas observá-la na ânsia meio morta de quem sabe compreende-la.  Agora eu a vejo mais claramente, acho que posso até senti-la, Mas não sabendo o que ela sente me pergunto se é possível sentir o indefinível que é não saber o que se sente, de qualquer forma me vi sentindo o que era indefinível pra mim, mas que ela conhecia muito bem. De onde eu estava pude ter uma visão daquele quarto cheio de sua brancura vazia, tão, mas tão vazia quanto aquela moça que ali estava a derramar suas lágrimas de sangue. Pois até a única coisa que ainda lhe havia dentro, ela estava agora a derramar em desespero, tornando-se ainda mais oca tal qual aquele claustrofóbico quarto.
Sente se presa. Mas onde? Ou melhor, ela está realmente presa? Não sabe de nada, apenas quer fugir, mesmo não sabendo de que maneira ou para onde. Não enxerga a saída mesmo com a porta de sua prisão escancarada, pode ser que ela não veja, pois lá fora se encontrava muito mais claro a ponto de não ser possível suportar, e lhe ofuscando o resto que ainda havia de brilho em seus olhos. Talvez tenha medo, tão grande este de encarar seus próprios medos e fugir de vez desse aprisionamento em que se encontra a triste moça a chorar lágrimas de sangue...
Por que tem medo? Simples, sente o fantasma do fracasso arrastando-se para perto, perto demais pra que se sinta à vontade. Foi ele, diz ela, foi ele o culpado de tudo isso! E chora de novo suas lindas lágrimas de seu puro e púrpuro sangue. A cada gota que cai, tão lentamente na sua lentidão calculada, a cada grão de poeira que desce levemente para se acomodar no quarto, a  cada entrada de oxigênio em seus pulmões, a cada noite em que escureceu e uma luz não foi acesa ela se sente como se quisesse se livrar logo de tudo isso. Então finalmente Ela o fez: Abriu a janela de sua alma e num vôo sem asas, flutuou para longe dali.

Michelle Saimon

domingo, 18 de setembro de 2011

Alívio em gotas


Amar chuva é amar ao alívio

Amor a um doce delírio que desce em pingos.
Convida-te a pensar na vida, na morte,
Sobre tudo, talvez no nada
Com seu cheiro melancolicamente doce de terra molhada.

Tem cheiro de desejo de regressar às tardes de infância primaveris
Que me incita a esses pensamentos desenfreados
Agora quase infantis.
Nesse instante sei, não estou mais com os nervos à flor da pele.
E sim com a vida a flor da mesma.

Mas acredito agora que não sejam mais flores.
Serão espinhos? Ah com certeza, espinhos sim.
Aos montes, às toneladas
Aos poucos maltrata
Esperando só para sangrar as esperanças restantes desse cansaço.

O céu e a alma escurecem
Vem a chuva, e junto com ela a vontade de se libertar, sabe-se lá de quê!
Quebrar as grades, derrubar portas, romper as algemas e tudo mais que prenda.
Deixar que seus pingos desçam pelo corpo como se fosse a última chuva
Que os desertos agora merecem.


(Michelle Saimon)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Fluxo de idéias descontroladamente desconexas


Há dias em que as palavras escapolem, não podendo controlar. Elas simplesmente descem em um fluxo incontrolável de realidade misturada com emoções.  É que o subconsciente escandaliza as portas do entendimento, o que de nada adianta; continuo muda num monólogo perturbador e o prazer do desabafo por uma escrita.
       São como emoções assim, descabidas, desenxabidas, desesperadas, a procura de uma forma de se comunicar...
Palavras de uma intolerável revolta pelo que não existe.  É que são assim, de uma serenidade angustiosa, misturada a uma turbulenta indignação formada por paz.
Palavras assim, desconexas, irremediavelmente confusas, só gritam, sem nada dizer. Já não sei fazer nada a não ser sentir profundamente o que não se devia de maneira nenhuma ser sentido.
Tenho nos meus sentidos o alerta de que sentir às vezes torna-se algo tão perigoso, quanto o gesto de apenas deixar de sentir. Como se não bastasse o perigo de viver, ainda agora me aparece o perigo que é o sentir.
Então esqueço agora o sentir, esqueço agora o que é viver. Vou apenas escrever minhas palavras desconexas. Mas, ora essa! Escrever já não é um gesto de sentir e viver? Não sei, prefiro nem pensar nisso. Vou apenas deixar que inunde todo o meu ser com fluxo de idéias descontroladamente desconexas.
(Michelle Saimon)



quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A descoberta do Mundo nas linhas de Clarice Lispector!


Hoje vou falar sobre uma escritora que eu admiro tanto, que me faltam palavras elogiosas para descrevê-la. Então, isso vai ser uma tentativa. Hahaha!   Vamos lá?
Ela é Clarice Lispector. Quem nunca ouviu falar dessa super escritora?  Quem nunca se identificou com o que ela escrevia? Clarice é isso, emoções escritas, que grudam na alma da gente. Simplesmente viciante!
Clarice nasceu na Ucrânia no ano de 1926, mas mudou-se com seus pais para o Brasil com apenas dois meses de idade, naturalizando-se brasileira. Sempre que era questionada sobre sua nacionalidade, Clarice dizia que não tinha nenhuma ligação à Ucrânia, e sua verdadeira pátria era o Brasil.
Passou boa parte de sua infância em no Bairro de Boa Vista, em Recife. Onde seu imenso talento dava suas primeiras manifestações, Clarice começou a escrever logo após ser alfabetizada. Falava vários idiomas, entre eles o francês e o inglês.
Aos 15 anos, Foi morar no Rio de Janeiro com a família, e estudou numa escola primária na Tijuca, até ir para um curso preparatório na Faculdade de Direito. Foi ai que ela descobriu a literatura, depois de ficar chateada com algumas das teorias ensinadas no curso.  Seu primeiro conto, Triunfo, foi publicado na revista Pan no dia 25 de maio de 1940. Clarice tinha então 19 anos. No mesmo ano, Clarice foi chamada para trabalhar na Agência Nacional, que era a responsável por distribuir notícias a jornais e emissoras de rádio.
Seu primeiro romance foi Perto do coração selvagem, publicado em dezembro de 1943. Foi escrito quando Clarice contava com apenas 19 anos. O livro causou espanto na crítica, talvez por ter um caráter existencial totalmente inovador, ou pelo seu estilo solto, essa quebra de seqüência – começo, meio e fim -, o constante uso de metáforas, etc.
O que diferia muito da literatura da época era regionalista, ou seja, com personagens e histórias que denunciavam o descaso social do Brasil.
Mas após as críticas e surpresa do público, seu talento logo foi reconhecido. Em outubro de 1944, o livro Perto do coração selvagem ganhou o prêmio da Fundação Graça Aranha de melhor romance de estréia.
Clarice também foi Colunista do Jornal do Brasil, do Correio da manhã e do Jornal da Noite.  Onde suas colunas eram destinadas ao público feminino, e abordava assuntos como comportamento, moda e beleza.
Ao todo, Clarice escreveu mais de 30 livros, de uma originalidade única que só ela sabia ter. Mas não basta que você só leia Clarice, a escrita dela é muito mais que isso, e necessário que você a sinta. Sinta com o mesmo prazer que se sente ao receber um abraço inesperado ou o prazer de consumir uma fruta direto no pé. É uma escrita vem para desvenda nossos anseios e sentimentos mais íntimos. Simplificando: A escrita de Clarice não tem definição, é apenas o prazer de mergulhar no mundo indefinível das páginas de um livro dessa grande escritora. Então, ao terminar de ler esse post, porque não vai ler, não melhor, Sentir Clarice? Descubra a Legião estrangeira por trás de suas palavras. Tenho certeza que você vai adorar!
Clarice Lispector

         “(...) Nasci para escrever. Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo.” Clarice Lispector

Bom foi uma pequena Biografia sobre a autora, e neste Link você encontra uma lista com suas obras: http://www.releituras.com/clispector_bio1.asp
Até Mais! ;*

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A alma da gente,



como sabes, é uma casa assim disposta, não raro
com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras,
sem janelas, ou com poucas e gradeadas, à semelhança de conventos e prisões.
Outrossim, capelas e bazares, simples alpendres ou paços suntuosos.

(Machado de Assis)

Desorganização sentimental




Acordar com estômago vazio e a cabeça cheia

Necessidade urgente de uma reorganização.
Olho pros lados e ta tudo uma bagunça,
Tudo fora do lugar.

Jogo pra cima, rasgo no meio, essas dúvidas que bagunçam tudo e não deixa enxergar as respostas a se dar...
Quando acho então, me vêem atitudes impensadas:
Com uma faca afiada, corto seu pescoço.
Mas ela se recompõe, sete cabeças. Nenhum coração.
Preciso de uma lavagem estomacal, cerebral, sentimental... Sei lá!

Qualquer coisa diferente que me ajude a
Reinventar-me, moldar quem
sabe, com fôrmas de menos defeitos.

Banhar-me em uma chuva com gotas salgadas
das mais esquecidas lágrimas,
Que esperaram por tanto tempo para
derramar.

Mas em vez disso, o que me vêm
exibidas, assim mostrando sua face sarcástica
 uma verdade que não tem o que vestir,
Ela é desse jeito mesmo, nua e crua.
Despida de qualquer pudor.

Abro o armário de consolações, mas
não encontro nenhuma que sirva,
Conformo-me, então espero outra
chuva chegar.

(Michelle Saimon)

sábado, 10 de setembro de 2011

Folhas de Rosa





... Falo-lhes d’mores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente...
Pouco a pouco o perfume de outrora
Flutua em volta delas, docemente...

Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que triste, me deslumbra e m’embriaga.

(Trecho do poema Folhas de Rosa de Florbela Espanca)


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Correspondências


Quando se empenha o Poeta em conceber agora
Essas grandezas raras que ardiam outrora,
No palco em que a nudez humana luz sem brio
Sente ele n'alma um tenebroso calafrio
Ante esse horrendo quadro de bestiais ultrajes.
Ó quanto monstro a deplorar os próprios trajes!
Ó troncos cômicos, figuras de espantalhos!
Ó corpos magros, flácidos, inflados, falhos,
Que o deus utilitário, frio e sem cansaço,
Desde a infância cingiu em suas gases de aço!
E vós, mulheres, mais seráficas que os círios,
Que a orgia ceva e rói, vós, virgens como lírios,
Que herdaram de Eva o vício da perpetuidade
E todos os horrores da fecundidade!

Possuímos, é verdade, impérios corrompidos,
Com velhos povos de esplendores esquecidos:
Semblantes roídos pelos cancros da emoção,
E por assim dizer belezas de evasão;
Tais inventos, porém, das musas mais tardias
Jamais impedirão que as gerações doentias
Rendam à juventude uma homenagem grave
- À juventude, de ar singelo e fronte suave,
De olhar translúcido como água de corrente,
E que se entorna sobre tudo, negligente,
Tal qual o azul do céu, os pássaros e as flores,
Seus perfumes, seus cantos, seus doces calores. 

(Trecho do poema Correspondências de Charles Baudelaire)

sábado, 3 de setembro de 2011

Queria que as pessoas



Se preocupassem mais em “ser” e não “parecer”. Ou melhor, se preocupar mais em “ser” do que “ter”. Em resumo, agente deveria ler mais. Isso sim realmente faria alguma diferença.
(Nick Farewell)



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo:




Sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias
(Clarice Lispector)