domingo, 30 de dezembro de 2012

Retrospectiva 2012: Os 5 textos mais lidos do blog

Estamos nos últimos dias de 2012, e como de costume, nessa época vêm as tão comuns retrospectivas. O Sobre Dias Nublados vai entrar nessa também. Por quê não? Já que o blog está perto de completar um ano resolvi fazer tipo um top 5 das crônicas/textos mas mais lidos esse ano (ou sei lá como chamar o que escrevo por aqui). Bora lá? Ah, e aproveito para desejar a vocês leitores novos ou antigos desse blog um 2013 maravilhoso e deixar meus agradecimentos.  Faço aqui também outra coisa muito comum à essa época, aqueles velhos planos e promessas de fim de ano: Prometo que vou me esforçar mais para manter esse cantinho que gosto tanto mais atualizado. Promessa de fim de ano viu pessoal? Não vão cobrar muito! =P



1. Necessidade

São tantas coisas necessárias para se dizer. E essas tantas palavras que fogem do meu controle e que também criei para suportar qualquer coisa sem nome.


Ela não o amava. Ela amava a liberdade, o menino era a prisão turva do vidro. Como ser feliz com a possibilidade de só poder ver a vida de dentro de um pote? Questionava o tempo inteiro, mas respostas eram impossíveis de serem ouvidas, o vidro abafava o som tanto quanto abafava sua vida.”



Sem dar tempo ao descontrole abri a porta e praticamente me joguei sentada naquela varanda forrada com folhas, lá eu podia me refugiar, sentir o vento. Peguei um graveto e comecei a desenhar utopias na terra. Eu me sentia bem apesar de tudo, mas como eu não tinha razão ninguém entendia como isso era possível.”




Um dia, porém, pararei de devanear utopias e desenhar nuvens na terra.  Um dia eu descobrirei como parar de sonhar coisas sem sentido e eu te contarei como, mas nesse dia eu iria com um sorriso descontente lamentar em seu colo. Um dia talvez eu consiga escrever linhas compreensíveis, e todos entenderemos. Um dia talvez...



Um dia acordou subitamente no meio da noite, as corujas piavam e ele viu estrelas. Aquilo era tão fantástico! Nunca havia prestado atenção em estrelas mesmo que sua vida tivesse sempre sido sem telhados. E ele que não queria saber de nada descobriu que a Terra girava. Ah, sua tonta! Ele andava tão tonto que resolveu desligar-se do que dizia, pensava ou descobria e não mais girar junto com a Terra, mas sim em torno de suas próprias órbitas.”

sábado, 29 de dezembro de 2012

Urgência

Como se com seus passos rápidos fosse conseguir impedir o fim do mundo que aconteceria quando o universo começasse a cair. Ou melhor, quando a tarde começasse a ser tarde o suficiente a ponto de enfim começar a colorir-se. Talvez até conseguisse chegar a tempo. Talvez, mas algo mais algo mais forte que a sua tentativa de controle do tempo palpitava em seu íntimo insinuando que estaria sempre atrasada para alguma coisa e perder algum pedaço de alguma coisa que lhe seria como uma pontadinha dolorosa.
Era sempre assim. Sempre que os ponteiros iam deitando, sua ansiedade ia escorrendo salgada como o suor que lhe descia da testa. Por dentro, o medo de perder qualquer segundo que fosse, por fora, já ia correndo na mesma hora de todo dia à procura de sua bicicleta onde depositava em seu cesto todos os agrados e conquistas daquele dia. Saia então pedalando o mais rápido que conseguia à caminho da felicidade que encontraria logo após a estrada. Diferente das outras pessoas ela já sabia muito bem onde essa dita cuja morava e que cara tinha. Ia indo, estrada ventania que fazia com que seus cabelos se desprendessem do já frouxo laço que prendia os cabelos crespos durante o percurso.
Partia então estrada afora, fora de si, fora do mudo, quase flutuando, onde a única coisa que ainda sentia além da vontade de chegar logo era sua ansiedade inundando seu corpo e  descendo em gotículas salgadas pela sua testa.  Finalmente chegara, abrira a porta e o encontrara como sempre, naquele horário, à sua espera a construir castelos e carregando o sorriso mais lindo do universo. Como foi seu dia? Perguntara após ser coberta por abraços e beijos. Agora tudo ia bem, bem, bem...



sábado, 8 de dezembro de 2012

Desejo de borboleta



Queria tanto poder falar o que sinto, mas o que sinto é um sentimento egoísta. Um ser repulsivo que produz um enorme incômodo toda vez que paro para pensar em algo, que sufoca na garganta, que congela a ponta dos dedos e me faz querer correr por aí, mas a partir do momento que tento, vejo que minhas pernas de repente perderam essa função.
É sempre estranho parar e pensar, apenas isso. Perguntar a si mesmo o que fazer. Oi sombra de mim, você fica ou corre? Ou mato ou morro, eu preferi matar, mas sempre que conseguia tal feito não tinha jeito, morria um pouco. Quem via? Eu via. Será mesmo? Queria um pouco menos de perguntas e mais respostas úteis. Quão tola sou! Quem nesse planeta não queria? Caramba!
Queria ser uma borboleta daquelas que tem a sorte de nunca ser pega pela asa. Será que existem borboletas com vontade de serem seres humanos também? Quanta bobagem! Estas devem ser muito tolas, se bem que eu nunca fui borboleta pra saber se realmente me aprazeria ser uma. Mas imagino que sim.  Nasci ser humana, pelo menos assim disseram que seria eu a vida toda. Ah, é que quando minha cabeça resolve brincar de borboleta é mágico, mas também é o inferno dos infernos.

domingo, 25 de novembro de 2012

Confetes pela manhã



E aí vem a indagação: pra quê esses resquícios infernais de memória que perfuram essas capas finas que pensávamos nos proteger de qualquer reminiscência futura?  Protegem nada! Só retardam, e às vezes nem isso.
Sei lá de razão, nem muito menos emoção, tudo é apenas uma mistura cheia de falhas agora. Certos sentimentos e pessoas deveriam vir com coisas do tipo “satisfação garantida ou sua vida imaginariamente equilibrada de volta”, assim talvez tivéssemos menos medo de arriscar o conhecido que fazemos questão de brincar de cabra cega só para obter algum tipo mortal de emoção vazia.
Do mais, detesto todas as manhãs. Ou melhor, odeio esse exagero de drama. E que me perdoem todas as manhãs lindas e até as mais nefastas do universo que ofendi com minha frase. Meu ódio talvez advenha de uma das coisas que mais amo nessa vida. Palavras, palavras, palavras... Tão pouco eficientes na arte de comunicar quando o que na maioria das vezes qualquer gesto bobo seria mais do que necessário. Ah, é tudo drama!
Materializando a agonia, escrevo-a em um papel qualquer e depois despedaço. Pronto, cabeça e corpo leves e confetes recém criados para a festa da libertação dos pensamentos escravos. Depois que vir a sensação de liberdade, ria de sua própria infantilidade de quem estava com medo dos monstros embaixo da cama e finalmente descobre que era tudo invenção. Confetes meu amor, confetes!

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Inquietude



A pia já andava pingando mais demências que minha sanidade. E eu, eu não precisava escutar mais um monte de issos e aquilos, não suportava mais adentrar em sonhos loucos, não suportava de tal modo que sempre repetia as doses.
E essa música alta que já nem ouço mais? Danço o silêncio meu bem. Promovo bailes de melancolia no escuro oscilante de minha própria perturbação. Rodopiando, oscilando sem nem saber por que nem pra quê, mas afinal acho que nem importa agora. E é que finalmente redescobri que já nem sei o que quero.
Outra vez.

domingo, 5 de agosto de 2012

Desajuste



Não quero nem saber dos rabiscos e riscos
Muito menos dos desenhos inteiros
Quero o meio do nada, onde eu possa re-criar um lugar
Que o caos e o desajuste interno se instalem
Hoje, eu deixo, mas sou fraca demais para que deixe ser eterno.
Pelo menos hoje, peço que venha até mim. Uma reação e depois a ação
Estão ouvindo a flauta doce que vem do interior?
Eu imagino, ela passa a existir.
Já me parece tão real que vou acompanhando hipnoticamente, mas desta vez vou sozinha,
Não quero demônios madrinhas a me atormentar.
Peco e não peço perdão a Deus
Peço perdão e não peco
Peço perdão a mim. Peco, me perdôo.
E amanhã vou morrer de saudades de ser confusa de novo.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Falta de ar




Parecia que aquilo jamais teria um fim. Um Blá blá blá onde não existia ninguém. O tic tac já nem lhe doía mais a cabeça, incomodava o estômago cheio de porcarias entupidas de maionese, agora mais cheio ainda de todos aqueles números que pareciam ter adquirido vida própria e papéis abarrotados de palavras desinteressantes. Um café com sua fumaça explorando o ambiente, entrando pelas narinas e já não lhe causava mais o antigo desejo.
Tentou olhar para a janela, onde do lado de fora um moço que deveria ter seus quase vinte anos limpava aqueles vidros já limpos. Tanta mania de perfeição para o que não importa tanto... Mas a monotonia daquele serviço o convidava, queria uma ocupação assim, pelo menos seria acariciado com o vento. Ah, nunca mais havia parado para sentir! Se algum conhecido seu de repente ouvisse isso, imediatamente o culparia por ser tão mal agradecido com a sorte e lhe diria com a maior convicção que alguém pode ter: “Ora, mas você tem o melhor emprego do mundo!” Quando era mais moço realmente estava convencido disso, mas hoje? Queria apenas paz em vez de viver vendo o mundo apenas pela janela de um escritório e no final do dia entrar em sua caixa que solta fumaça e vive infectando o ar. Muitos matariam para ter um carro daqueles, pois bem, ele não o queria mais, não passava de uma caixa envenenadora!
Despertou desse minúsculo coma com o barulho do telefone tocando. Sempre eles! Nunca paravam, nunca davam trégua. A gravata agora começava a apertar seu pescoço, e ele nem se lembrava de tê-la apertado tanto. O ar-condicionado ligado, congelando a sala, mas uma gota de suor descia ardente em sua testa, passou o lenço, veio outra. Desespero, sensação de aprisionamento e o tic tac cada vez mais alto ensurdecendo e derrubando seu muro de segurança forjado. Alguém lhe disse que teria reunião às 16:00. Que horas seriam agora? Teria tempo? Teria vontade? O que ele tinha? Uma sensação horrível de estranhamento ao normal, ao que fizera durante anos. Acabara esquecendo-se do vento, o que era um crime.
A pressão foi subindo e a raiva de tudo aumentando, gritara para si mesmo “chega!”, pelo menos por hoje, sabia que amanhã retornaria, era mais forte que sua indignação. Saiu apressando pela porta e foi descendo as escadas como um louco, não precisava de elevador hoje, não mesmo. Conseguia ver a porta chegando, e o alívio se instalando. Jogou a gravata em qualquer lugar, desabotou a camisa que geralmente usava tão caprichosamente arrumada, mas que agora estava molhada de suor, era sua agonia saindo pelos poros. Andou à esmo por um incalculável tempo, viu o por do sol, fez promessas que não cumpriria a si mesmo, cantou uma música que há anos não ouvia. Por fim, acabou voltando para casa como um filho pródigo, se jogou no sofá e sentiu-se extremamente feliz.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Necessidade




As palavras vão saindo de fininho, escorregando por entre as veias, olhos e pelo papel. Não é uma movimentação imperceptível: Faz barulho, e não vai embora, fica para lá e para cá rodopiando pelos cantos, correndo freneticamente e de pirraça vai derrubando minhas ideias que com tanto esforço estavam dobradas, limpas e empilhadas desajeitadamente dentro de minha mente. Trouxeram uma poeira desconcentrante que sujou todo o meu trabalho e além de tudo veio só para perfurar a minha calma que inventei durante anos seculares para conseguir viver.
São tantas coisas necessárias para se dizer. E essas tantas palavras que fogem do meu controle e que também criei para suportar qualquer coisa sem nome. Preciso falar logo, gritar o mais alto possível. Não, eu preciso escrever, preciso me libertar ou pelo menos esquecer um pouco de toda essa desordem que eu mesmo vivo criando. Eu apenas quero escrever, mas neste momento a mão, a mente, não obedecem ao que comando e julgo necessário, mas só escrevendo é que consigo aliviar essa confusão incômoda que não deixa com que eu pense com clareza.
Percebo que já se tornou um vício, um alívio imediato para tudo, um necessidade, água pura para essas sedes eternas que acabam em minutos. Preciso escrever, e de repente o fiz. Entra um vento pela janela, a cortina balança sem delicadeza, o caderno está cheio de palavras rabiscadas. Respiro, inspiro, respiro, inspiro... Acho que funcionou por enquanto...

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Viagem errante de patins



Uma noite acordada a se sonhar, vontades girando em rodinhas sujas de lama pelas calçadas com seus pequenos e desequilibrantes buracos cinzentos que seu cimento de alma juvenil não aprendera ainda amenizar. Tantas vontades e tanta sede do irreal a equilibravam de um jeito desajeitadamente leve em cima daqueles patins. Se não fossem aquelas calçadas da vida tão esburacadas, se não fosse o vento que atrapalhava sua visão embaçada de mundo ao lhe jogar os finos fios de seu cabelo na cara, se não fosse um amanhecer que se esforçava lentamente para nascer, se o não fosse derrepente fosse...
A noite se despedia em uma contagiante preguiça matinal deixando traços de seu imaginário clareando ao longe. As ruas eram desertas e o deserto ia se espaçando e ganhando contornos mais fortes e desesperantes dentro dela. Ela se adaptando ao deserto como os olhos se adaptam à instantânea dor ao contato intruso de uma luz vinda do nada.
Os primeiros raios viam clareando os espaços sombrios do seu estado de quem descobriu que o orvalho da noite afogou suas lágrimas sempre tão incompreendidas. Um dilúvio de orvalho, as gotas grossas do que não veio, um choro que insistia em se petrificar no seu interior, sufocando sua respiração.
As borboletas fugiram do seu estômago, isso a fez sentir-se tonta com um inesperado vazio e com fome. Mas ela tinha também um vestido de festa grudado a seu corpo suado ou orvalhado, uma maquiagem e um coração borrados. Rodopiava inconscientemente, havia tempo que ia para lugar nenhum sem nem se dar conta e o corpo começou a ficar pesado. O que pesava poderia ser sua alma, mas ela tirou a bolsa e a depositou levemente em cima do banco da praça, sem a certeza do que fazia ou agora sentia. Estava tão cheia de arrependimentos aleatórios e irremediáveis. Tinha tanta coisa pesando no peito e suas rosas murcharam ao nascer do sol enquanto ela deslizava pelos becos de sua existência.
Um movimento em vão, uma dança que não existe, uma cura de si mesma, um veneno que a fazia ficar viva e suportar a dor, um destino mapeado, uma bússola quebrada, uma bala encontrada em seu vestido pego no guarda roupa da mãe enquanto esta apenas dormia e um patins velho que nunca mais havia usado. Vontade inquietante de ter uma história daquelas que os atores se aborrecem de representar, de uma fada madrinha que lhe desse uma dose da mais forte das bebidas e um roteiro que ela nunca seguiria. Um grito desenterrado da garganta, o sol descobrindo seu semblante, a viagem errante de patins. A criação de um felizes para sempre, o sempre que acabou, derrepente um ponto final virou reticência.

sábado, 14 de abril de 2012

Contos de gelo



Antes de começar com o post, vou colocar aqui uma coisa que o WELLJORBERT falou e eu gostei muito, bora ler?
“Tem uma coisa, que eu gosto muito em suas crônicas, esses personagens, que você faz, pra mim soam como um ser, que tem características humanas, sofre dissabores, mas eu os enxergo desprovidos de corpo humano. É um negócio meio louco,como se fosse um espírito ,que estivesse em outra dimensão... É um espírito flutuando nos confins da terra, perscrutando os fenômenos da natureza. Um ser, não para, que caminha sempre pra os lugares mais escondidos do universo, um ser de luz forte! Que toca a minha visão...”

- Bom vamos ao texto de hoje:
Talvez ela fosse apenas algum cuja nunca a vida fora questionada. Habituara-se forçadamente a ser  corroída pelo ácido dolorosamente incessível de algo maior que o próprio universo. Fora completamente feliz? Forças misteriosas que vinham de dentro afirmavam que não, ela era o incomplemento completo de ser pessoa que pensa em pessoa.
Talvez o que precisasse eram de sentimentos, um corpo, um sopro, um grão de areia que fosse só seu. Mas era ela completamente do universo, o universo a possuía e a instruía a não vivificação do que muitas vezes tentara: O ser livre.
O que seria livre? Pássaros são livres? O vento é livre? As ondas se quebram porque são livres? Mas o que é livre não tem liberdade. O que é liberdade está preso no ser livre e isso a entristecia, ela era presa a tudo, mas não conseguia chegar a se acorrentar num delicado tormento livre de existir.
Uma coisa ela me contou: a tristeza impulsiona ações impossíveis. Ela era triste, portanto havia se tornado livre da obrigação de sorrir e mostrar-se satisfeita ao seguir as etiquetas vagabundas de um mundo que se esconde por trás de muros de falso ouro. Enquanto me falava por pensamento, os ventos infernais do inverno vinham se aconchegando e se instalando numa pele já gasta de quem há décadas sentia um frio infiel. A garganta doía e o seu remédio seria o grito. O grito seria o alívio, a cura para se retirar um pouco de uma massa de arrependimentos e impedimentos instalados em sua existência em modo de garganta. Mas como gritar sem voz? Ela ficara muda por que assim quiseram-na, ela era infeliz porque não tinha possibilidades nem paciência, ela era infeliz porque recebeu a maldição da aceitação.
Eu a deixei congelar, minha personagem de contos de gelo. Ela era sua própria maldição e se deixou congelar por motivos nem sempre justificáveis. Ela veio da idade da pedra para deixar-se congelar na antiguidade atual. Ela era o próprio congelamento do não ser que a impedia qualquer movimento ao desconhecido.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Asas quebradas

Vendo-a assim tão imóvel e infeliz, eu vou dizer o que ela realmente era: uma constante e indefinível metamorfose. Naturalmente mistério, sopro do encanto divino. Era uma borboleta recém saída de um casulo incerto. E era linda, linda, linda. Mas tinha receio de conhecer de perto a encantabilidade do céu. Por medo de voar voltou ao seu casulo e conformou-se a esperar passivamente o atrofiamento de suas asas e a volta a sua forma rastejante anterior. Transformara-se em lagarta amante de uma falsa terra firme. Tinha medo de voar, mas se soubesse quantos perigos a terra esconde!
Era lagarta rara, e por medo fora escolhida para o peso do mundo. Não teve coragem de ser a escolhida dos ares, mas acabara sendo a escolhida de um menino, desses assim banguelos e sardentos com as mãos sujas de meninices.
Ela se tornara tão deprimidamente linda e rastejante dentro daquele pote turvo de vidro de azeitonas! E desde então o menino a amava com um amor que não daria a mais ninguém e nenhum outro ser sentimental poderia sentir. Era o amor de um jeito tão egoísta, como o mais puro dos amores é capaz de ser. Ele justificava dizendo que a tinha encontrado, portanto era de sua propriedade. Ele era um menino que não sabia que é impossível se obrigar a amar. Ele prendera a lagarta por amor, e por isso se sentia o ser mais sublime que já foi inventado. Acreditava que ela seria feliz naquele pote de azeitonas, isso era engano, pura inocência do gostar.
Quanto a ela, desde então chorava frequentemente desperdiçando suas invisíveis e dolorosas lágrimas de lagarta. Ela não o amava. Ela amava a liberdade, o menino era a prisão turva do vidro. Como ser feliz com a possibilidade de só poder ver a vida de dentro de um pote? Questionava o tempo inteiro, mas respostas eram impossíveis de serem ouvidas, o vidro abafava o som tanto quanto abafava sua vida.
Agora, por medo de ser eternamente prisioneira, desejou ser borboleta com medo do céu. De tanto desejo, desenvolveu asas quebradas, daquelas que só o inconsciente tem.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Pedaços daquele espelho manchado com ilustrações de Rodrigo Santos


Alguém aí já leu o post Pedaços Daquele Espelho Manchado? Bom, se não leu ainda dá tempo! Tem uma coisa sobre ele que eu não podia deixar de postar aqui. Vou explicar, um amigo veio com a proposta de desenhar os meus textos, e é claro que eu adorei a idéia né? Os primeiros desenhos ficaram prontos, e ficou a coisa mais linda! E ele muito humilde que é disse para eu dizer que os desenhos foram só um treinamento, nada profissional. Alguém aí acredita nisso?
Quem desenhou foi o Rodrigo Santos, e eu queria agradecer e já quero desenhos novos tá? Vou ficar te cobrando mesmo!  Então, vamos aos desenhos que foram baseados no post que eu citei acima.








sábado, 24 de março de 2012

Uma Vida Sem Telhados

Tão disperso e esplendoroso era o campo no qual colhia suas pequenas ambições pueris. Havia  a sua disposição, um horizonte infinito de colheitas quase sempre mal sucedidas, estas seriam pra sempre suas perseguidoras. Nunca se imaginara de outra forma,a seguir novos conceitos e ultrapassar os limites de sua imensidão. Nunca havia percebido, mas ele todo era cheio de uma forma ilimitadamente poderosa de sentir.
Em qualquer pingo de tinta enxergava arte, um prego enferrujado se transformava em novas idéias construídas instantaneamente. Em sua mente observava mil possibilidades que não eram possíveis de se tentar. Mas ele todo era como uma fonte límpida de água doce num deserto.
Ele tinha todas as sedes possíveis e criava novas outras só para ocupar sua existência tão molhada. Um dia acordou subitamente no meio da noite, as corujas piavam e ele viu estrelas. Aquilo era tão fantástico! Nunca havia prestado atenção em estrelas mesmo que sua vida tivesse sempre sido sem telhados. E ele que não queria saber de nada descobriu que a Terra girava. Ah, sua tonta! Ele andava tão tonto que resolveu desligar-se do que dizia, pensava ou descobria e não mais girar junto com a Terra, mas sim em torno de suas próprias órbitas.
Continuava em sua vida sem telhados, mas lá estrelas não havia. Mas, algumas coisas restaram: Seus campos tão negativos ao olhar dos outros que nada entendiam e um céu cheio de indagações e nuvens de uma coisa diferente do algodão. Ele iria desvendar seus mistérios e começaria a fabricar nuvens em seu quintal. Não era impossível, nunca fora. Encheu de um ar renovador os seus pulmões e experimentou sua maravilha de existir e ter mistérios para se resolver. Pela primeira vez havia se reconhecido como um plenamente satisfeito.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Um Mundo em conserva

No finalzinho de uma das aulas de hoje o professor virou-se para os alunos e pediu uma coisa que era desafio para muita gente: falar um pouco sobre si próprio. Eu não sei fazer isso, então não sei como faço. Nesse pedido há um grande perigo e dificuldade daquelas de fazer suar as mãos e tremer a caneta. Exagero? Sempre. Mas porque esta dificuldade? Se souber me diz pois não conheço esse mistério e nem me sinto tão peixe a ponto de mergulhar neste oceano indiscreto.
Eu não sei e nem posso responder com totalidade esta questão que quer destampar meu mundo em conserva. Olha bem, mesmo que eu abrisse esse pote e me banhasse em teu líquido, eu não saberia como responder esta pergunta que vem eriçando pelos e congelando mãos desde que o primeiro “quem é você?” foi perguntado.
Embora sejamos as pessoas que mais sabem o que habita e acontece nessa caverna interna que chamamos de eu, nós temos medo de penetrar a imensidão escura e ver-se de encontro com os morcegos que nos pegam pelo pé e nos arrastam a nossos abismos. Fugir ou enfrentar e depois pular por si próprio no desconhecimento? Decida e não me leve, decidi que ficarei na porta a esperar sentada em algum lugar. Tenho medo e admito que há um receio no conhecimento do que chamo de eu.
E se eu descobrir que eu não era o que queria ou perceber que eu na verdade não era eu? Poderia conviver com uma falsa piedade individual? Estou questionando demais, bem sei, mas se fui questionada e pega de surpresa na minha infantil segurança que mal há? Então agora sou eu que me cobro respostas e me pergunto: Quem sou eu? Não diria mesmo que soubesse a fundo, nem a mim, nem a você e se você souber finja que não sabe, eu não suportaria descobrir sabe-se lá o quê. É perigoso e intimidador demais. Desvenda-me, desvende-se e desvendaremos, ou não. Somos fruto da inexplicável incerteza e por via das dúvidas nascemos cheios delas e de vontade de saber o que somos. Somos um algo que não se explica, se vive, se sente, se desespera, se é humano.
Eu tenho uma chave sem porta dentro de mim e sei que em você deve existir algo parecido. Se ouso entrar em minha caverna cheia de pedrinhas lisas posso me perder e nunca mais retornar. Estarei eu tão gravemente enganada? Sabe-se lá! Mexeram com meu desequilíbrio habitual a partir do momento em que fui questionada.Por garantia, deixarei meu mundo em conserva e nem ouso abri-lo completamente, tenho medo que estrague.

sábado, 3 de março de 2012

Humanamente afetável


Lançando-se ao desconhecido, ao infinito e indizível espremedor de corações. Que aperta tanto esse pobre ser pulsante que chega a dar dó. Espreme e guarda teu líquen para a posteridade, esse líquido de pouco sabor! Esse fel açucarado demais. Guarda, que mesmo assim estas estrelas artificiais e pálidas que brotam mansamente das janelas nunca ofuscarão o que tendes de melhor.
Eu me contei que tinha sonhos inexpressivos dos quais seus significados nunca encontraremos nos livros. Poetas e seu admirável poço de sabedoria não conseguirão descrever inteiramente porque os sonhos existem ou porque a maioria deles gosta tanto de massacrar os corações mais frágeis. Mas sentem, algo me diz que sentem essa inquietação de não saber o que se sonha ou o que se sente e não conseguir descrever. As palavras às vezes são tão limitadas!
Limitadas ou não ai de mim se as palavras não existissem!  Se existem palavras o alívio logo vem vindo de passagem, aí é que eu respiro seu ar. Senti o cotidiano em seu ritmo descaradamente abalável. Eu vi que era cinza com uma gota de azul. Foi ai que me permiti diluir seu azul para tornar o cinza de outra cor. Não se misturavam e sim se complementavam. De qualquer modo se diluía em mim o espectro da vida.
Como não sentir se agora pesava em minhas costas? Mas havia algo mais pesado que isso. Eram os apegos pregados no fundo da mochila, era a história repetida tantas outras vezes, era o mundo em minhas costas. O universo batendo asas na palma de minha mão depois de escrever no vento que eu seria frágil o bastante para aguentar.
Aguentei como disseste. Depois de uma respiração sorriu-me e minha boca sentiu o hálito sereno do universo repuxando-a num sorriso. Senti-me calma no momento de sua fingida despedida. Volta logo universo, que dou-te um cálice do meu mais puro sangue para que seja bom como tu dizes. Ninguém percebe nada e se percebe logo esquece. Mesmo assim desejarei profundamente esse hálito fresco convertido em sorrisos. O que mais posso fazer? Sempre serei humanamente afetável por despercebidos eventos do cotidiano

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Eu quero não saber a resposta, e eu quero estar incerta dessa afirmação.

Dia desses eu resolvi questionar.  Perguntava sobre tudo, desconfiava quando não havia nada. Só por tantas dúvidas minha bússola não suportou e resolveu partir-se em micro pedaços que sumiram junto com uma coisa que nunca houvera existido. Como agora iria encontrar o lugar? Mais uma dúvida para anotar no meu caderninho de inexistentes certezas futuras. O que havia de fazer? Migrei junto com meus medos e dúvidas para um lugar distante. Tão, mais tão distante que nunca chegou. Eu sonhava com o dia que chegaria a terra das certezas. Como seriam seus habitantes? Altos, magros, pequeninos, gigantes? Seriam eles bonitos ou feios? Talvez cheios de si e do mundo, talvez cheios de tanta certeza. Quando eu chegar a conhecê-los perguntarei se um dia foram felizes em sua terra infértil para dúvidas.
Há um ditado que diz que quem acredita sempre alcança. Então eu me apaguei depressa a qualquer tipo de esperança. Acreditei e acreditei com tanta força que me vi a desacreditar no que um dia me destinei a querer acreditar, entende? Escuta, eu alcancei, mesmo que com a ponta dos dedos eu alcancei a terra das certezas. Quer saber como lá era? Maravilhoso! Meus olhos não sabiam o que apreciavam primeiro, havia um conflito entre o olhar e o enxergar mais profundamente. É confuso, eu sei. Mas não posso ter confusões já que toquei meu indicador levemente na terra das certezas. Eu tenho que contar como era. Eu era a perdida enquanto estava lá, eu era a confusa na terra das certezas, mas é que era tudo tão artificialmente lindo que eu me esqueci de respirar. Isso era imperdoável na terra das certezas, já que lá se havia a certeza de que era proibido parar de respirar ou qualquer outra coisa que rompesse a ordem natural. Feito esse crime contra a sociedade das certezas eu fui presa para que não pudesse contaminar os filhos da certeza, seu solo de certeza, sua convicção de certeza. Vieram me prender, mas não havia ninguém lá. Explico-me, a terra das certezas era inquietantemente perfeita demais para alguém viver lá. Eu queria tanto conhecer seus habitantes e ouvir suas histórias, mas não morava ninguém por lá. Era proibido para humanos.
Se era proibido a humanos, era proibido para mim. A dona verdade me expulsou de seu mundinho perfeito porque eu havia tocado com a ponta de meus dedos seu lindo mundo inconcreto.  Não sei quanto tempo depois acordei e me lembrei que eu não sabia que horas eram e nem quanto tempo precisaria para responder cada pergunta que fizera a mim mesma. Eu estava de novo na Terra. Eu estava de novo em meu quarto, eu estava sentada de novo em dúvidas nada confortáveis e me lembrava de muito pouca coisa do que tinha visto naquela terra mesquinha de certezas, as descrevi aqui antes que as esquecesse por completo. E quer saber? Aquela confiança inútil e falta de dúvidas que tinha a terra das certezas me deixou enjoada. Eu quero não saber a resposta, e eu quero estar incerta dessa afirmação.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Mas hoje não, me trancarei nos abismos de mim"

Agora irei falar de detalhes esquecidos, fatos dormidos numa ordem sem organização. Irei falar de casos contidos, meros caprichos que a vida vive levando. Mas agora, estou cronologicamente desnorteada.
Falarei de casos antigos, como no dia em que o mundo girava em órbitas esquisitas e despreocupadas, sussurrarei em ouvidos secretos o segredo de se ter um. Dormirei ao relento e falarei que fez frio, tinha insetos ao meu redor e direi que foi bom. Você não sabe mas cada estrela me contou um segredinho do universo, eu me assombrei, quem sabe te conte.
Um dia. Falarei de casos de gente de verdade. Eles me contaram como é que se era feliz. Naquele tempo eram.  Falarei sem pudor como é sorrir para estranhos que fazem caretas e depois esquecerão que encontrava na rua alguém que beirava a loucura e lhes sorriu.  
Descobrirei casos confusos que eu lhe contarei feliz. Vem vem ouvir o que tenho a lhe dizer! Eu chegaria assim, aos pulos e passos apressados de gente que ainda quer saber muito mais. Um dia eu meterei meu nariz onde não fui chamada e terei uma conversinha com os deuses perguntando o porque de tanta miséria. Sei que me responderão sérios enquanto me acalentam com mãos protetoras que só o divinamente inexplicável poder ter.
Ainda pularei num lago sem saber nadar, a água será congelante e funda, mas os peixes me ensinarão a respirar. Eu serei a pessoa mais feliz do mundo, e eu te contarei o segredo. Um dia, porém, pararei de devanear utopias e desenhar nuvens na terra.  Um dia eu descobrirei como parar de sonhar coisas sem sentido e eu te contarei como, mas nesse dia eu iria com um sorriso descontente lamentar em seu colo. Um dia talvez eu consiga escrever linhas compreensíveis, e todos entenderemos. Um dia talvez... Mas hoje não, me trancarei nos abismos de mim.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Pedaços daquele espelho manchado

Eu bem que poderia julgar todos os seus deslizes e toda vez que me fez perder a cabeça. Mas não, não farei isso. Eu erro você erra e nós nos perdoamos.  Lembra disso? Aquelas tardes em que você batia na minha porta e vinha se desculpar trazendo sonhos, meus filmes prediletos e aquele sorriso de quem diz “não fiz por mal”. Você ainda lembra?
Sei que já não mais recorda, as memórias se esvaíram e foram embora como se nunca tivessem existido. Eu sei, eu poderia tentar ser mais perfeita, mas se eu mudasse como seria? Acostumar-se-ia ao meu jeito? Habituar-se-ia a uma pessoa estranhamente recriada a atender seus caprichos? Eu poderia fazer isso à algum tempo atrás. Hoje nem se eu quisesse.
Voltei os meus nostálgicos pensamentos naquela manhã em que você veio todo descabelado vestido de vento e disse vem, vamos ficar juntos para sempre! Eu te achei um louco e disse que era tempo demais. Você havia desmanchado seu sorriso de dentes infantis – que eu adorava – mas se refez e novo e disse: Não importa, o tempo é tão curtinho, vamos viver! Eu segurei em sua mão e fui. Eu te confiava a minha confiança no mundo. Você ainda lembra?
Você dizia que não tinha medo da morte. Tão inutilmente corajoso, tão tolo! Se fosse hoje você repetiria essas mesmas palavras, hein? Como o tempo muda nossas escolhas. Mudaram as escolhas, modificaram-se as vidas tão rápido que ainda não consegui compreender. A sua escolha mudou sua vida não é? A minha também, estávamos ligados lembra? Para que entrou naquele carro? Estávamos bem não estávamos? Você disse que iria ficar tudo bem, mas você esqueceu-se de perguntar se realmente ficaria tudo bem para aquela curva e para aquele caminhoneiro bêbado. Maldito!
Então seus juntos para sempre acabaram juntos com aquele espelho manchado que você trazia consigo para alinhar seu cabelo sempre caído no rosto. Eu sei que não me ouve, sei que não se lembra e não vai reagir, mas quer saber? Eu ainda guardo na minha gaveta os pedaços daquele espelho manchado, os sonhos e seu sorriso infantil, isso sim vai ficar junto de mim para sempre. Até que a morte nos separe e nos junte de novo, se é que isso é possível. Quanto a meu estado, embora esteja respirando esse maldito ar de hospital, eu morri junto com você.


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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Não há porque ter razão

Torturava-me dizendo que eu tinha que encontrar uma razão. Mas sabe, eu não queria, não mesmo! Cansa sabe? A razão na verdade não tem razão nenhuma. É mentirosa, uma completa louca desvairada e ainda por cima acha que tem razão. Ora essa! Mesmo assim me disseram que eu não podia argumentar por que eu não tinha uma maldita razão.
São essas coisas que me deixam nervosa, impaciente. Enquanto falava de coisas tolas eu batia o pé no chão paranoicamente limpo. Mas que orgulho tinha daquele chão! Mas eu não, eu gostava mesmo era daquele vento anterior a tempestade que soprava lá fora e trazia folhas secas através a janela sujando aquele alvo chão. Sim, era desse que eu gostava, aquele vento que trazia uma paz para minhas inquietas questões sem razão nenhuma. Não precisava.
Me sentia bem, mas uma ordem fez questão de tirar meus pensamentos de suas estranhas órbitas. Fecha essa janela! Essas malditas folhas secas estão acabando com a minha ordem. Dizia enraivecida a voz. Eu tinha paciência, aguentava. Eu gostava da janela e do seu vento, de suas folhas e sua sujeira. Dei alguns passos para frente e no meio do caminho parei decidida a não obedecer a voz, mas esta continuava gritando suas coisas chatas de estraga-prazer. O que eu podia fazer? Aquilo já estava esfarelando minha calma aos pouquinhos. Doía pra caramba, a janela era a minha liberdade, meu único contato com o que as pessoas costumam chamar de mundo. Decidi, continuei andando e fechei a janela, até porque já que eu não tinha nenhuma razão, era imaginadamente obrigada a obedecer que achava que tinha.
Sem dar tempo ao descontrole abri a porta e praticamente me joguei sentada naquela varanda forrada com folhas, lá eu podia me refugiar, sentir o vento. Peguei um graveto e comecei a desenhar utopias na terra. Eu me sentia bem apesar de tudo, mas como eu não tinha razão ninguém entendia como isso era possível.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A morte dos girassóis - Caio Fernando Abreu

Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo lenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que que foi, e ele enfim suspirou: “Me
disseram no Bonfim que você morreu na quinta-feira”. Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: “É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri
mesmo, e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixoastral”.
 Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa.
Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas. Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos
destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.
Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: “Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?” O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.
 Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.
 Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tãoquebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Poisno dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário,
feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, crau! Veio uma chuva medonha e deitou-o por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a idéia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.
 Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro. Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.
 Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.

Caio Fernando Abreu, livro Pequenas Epifanias, pág: 145

sábado, 14 de janeiro de 2012

Livro: Rilke – Cartas a um jovem poeta


Imagine que você é um jovem aspirante a poeta e por meio de cartas pede conselhos a um já famoso escritor. O nome desse escritor é Rainer Maria Rilke e o jovem chama-se Franz Kappus. Agora imagine que essa carta é respondida e é só o começo para muitas outras. Esse é o livro Rilke – Cartas a um jovem poeta onde são encontradas as cartas de Rilke mandadas como resposta às dúvidas de Kappus. E que cartas! Simplesmente incríveis com suas opiniões não só a respeito da criação artística mas aspectos como a solidão, Deus, a relação entre os seres humanos, etc.
Apesar de aparentemente pequeno (apenas 91 páginas) é riquíssimo em um conteúdo surpreendente. Esse livro acabou se tornando um dos indispensáveis em minha vida. Sabe aquele que você quer sempre ter na prateleira e folhear de vez em quando? Ele é um desses! Depois de ler, quem vai querer receber essas cartas é você, então está esperando o que? Corre! Quem quiser fazer o download é só clicar aqui. Beijos!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Remendando Memórias - Parte II

*Parte I aqui
Olhou com amor o pequeno tecido e direcionou sua atenção para a mesinha. Ela continuava lá, sim! A máquina de remendar memórias, agora carcomida pela insistente ferrugem que o tempo põe nas coisas. Era muito velha; a máquina, as lembranças, quem as costurava. Será que iria conseguir terminar seu trabalho? Com essas mãozinhas enrugadas e trêmulas, com essa máquina velha enferrujada e ainda mais essas memórias semi destruída pelas traças! Demoraria demais, devia haver outro jeito.
Foi lentamente ao armário e pegou alguns frasquinhos de vidro. cobriu se toda com preciosos óleos anti-ferrugem e bebeu um gole generoso de água colhida em uma fonte da juventude que jorrava de sorrisos esquecidos. E agora, sentia-se melhor? Não sabia, era estranho. Porque se sentira assim se só queria ver suas memórias tão vivas de novo? Saiu decidida em direção ao jardim com seus passinhos apressados, mas tristes e se sentou em meio as folhas que caiam das árvores. Ficou por um bom tempo, o céu se pintava levemente de rosa. No dia que se conheceram  céu estava assim. Lembrava bem ainda, essa foi a memória que conseguiu remendar melhor. Tinha uns pequenos buracos, isso não a desanimava.
A noite já caía, precisava fazer o chá. Tomaria sozinha, sem poder ver as ruguinhas salientes ao redor daqueles olhos.  Não iria passar na padaria e trazer os biscoitos, antes de fechar os olhos ele dissera para que ela nunca deixasse as traças comerem completamente as memórias, desejou que ela ficasse bem, e explicou sorrindo que fazia parte da vida, não queria vê-la chorar. Ela tomaria seu chá sozinha dessa vez, com suas mãozinhas enrugadas já antes mencionadas, depois voltaria e não, não desistiria iria consertar aquelas memórias. Nesse momento já não enxergaria mais nada, os grossos óculos, a janela. Nada mais adiantava, nascia uma fonte cristalina e salgada de seus olhos cansados.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Remendando Memórias - Parte I


Passava horas a fio a remendar velhas lembranças. Com suas mãozinhas enrugadas e trêmulas era difícil fazer o fiozinho prateado entrar na agulha, mas mesmo assim continuava. Era uma tarefa quase impossível, as memórias vinham em forma de tecidos velhos e gastos pelo tempo, qualquer movimento mais brusco e via o velho tecido se desfazendo em mil fiapos que se libertavam levemente em direção à janela aberta. Pensava que era tudo culpa dela. Ah, essa janela que lhe deixava escapar os fiapinhos de memória! Já haveria trancado ela se não fosse a claridade que proporcionava para fazer seus tão preciosos remendos. Seus olhos por trás do grosso óculos já não eram mais os mesmos...
Qual remendar primeiro? Eram tantas especiais. Pensou e com a sua mãzinha confusa passou a mão pelos velhos tecidos e pegou o mais prejudicado pelas traças. Continuava uma bela lembrança, se decidiu sorrindo que aquela seria a última a receber seus cuidados. Escolheu outra, esse tão igualmente importante quanto a anterior, era a memória do dia que seu velho chegou sorrindo em casa, nunca esqueceria aquele sorrisinho que faziam as rugas ao redor dos olhos ficarem ainda mais salientes.  Vinha com uma caixa toda enfeitada na mão. Surpresa! Era uma máquina de costurar memórias; a mais linda e amável de todas as outras que um dia poderia ter existido. Mas era rara, poucas pessoas tinha a chance de ter uma máquina para remendar suas melhores lembranças. E poucas pessoas tinham esse amor de ruguinhas salientes ao redor dos olhos.