segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Me pinto sim



Um  velho homem que só conheço de rosto
O moço barbudo que chega e diz
“Porque você se faz tão senhora?
Se pinte não, que você fica velha, moça.”
Me pinto sim porque sou senhora
Porque vivo a me fantasiar de mim
Por querer me assemelhar as borboletas
Coloridas, vivas
Por ser encarnada nas metamorfoses
Por transcender a matéria corpo que nasci,
Sendo artista nele
Me pinto sim por ser tão eu pintora
Velha de alma
Ainda sem rugas na face
Mas em ensaio do que já tem por dentro.
Pintora dos dias

Que anda sem calma versando o que vê.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

No verso e na pinga


No verso e na pinga,
O mundo do poeta gira
No verso e na pinga,
O poeta pinga e mancha o papel.
Se mancha em saudade
Toda vez que se desmancha em nostalgias
E sua canção  de noite pinga quando há lua
Pinga em chuva quando há dia
Dia de sol, pinga raio
Em telhados encharcados
Entoa a canção desmanchada
Que pingou sobre o poeta
Que desfaz-se em nuvens
Se a tontura mancha sua sobriedade
Se seus passos já não controla
De tanto amor que pinga em sua poesia.
No verso e na pinga,
O mundo do poeta gira.


Michelle Saimon e Aline Uzêda

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Dos janeiros


E de novo é janeiro. Mal posso acreditar em como é possível sobreviver a rotações assim, tão rápidas. Ilesos nem tanto, é verdade. Um tanto machucados às vezes, mas esquecemos quando a ferida dá sinais de cicatrização. Esquecemos tanta coisa. Só se sobrevive no esquecimento. Esquecer deve ser a mais saudável das tarefas.
Janeiro me espeta. Janeiro é aquele menino pirracento, que meche contigo até que se perca as estribeiras. E perco mesmo, me perco. É inquietação, é branco demais, e branco suja-se com a facilidade que não sabe de onde vem. E o branco daqui, se afeta nos mais profundos desejos de mudança. Prometo o mundo, e o mundo deve ser branco. Sujo-o. Este ano, tive o cuidado de não tentar prometer nada. Mas prometi não prometer e quebrei a corrente. E prometo várias coisas sim, porque é janeiro e já disse que janeiro me espeta.
E de novo é a mesma data tantas vezes repetida. O mesmo número, o mesmo mês. Outros anos que tem muito dos mesmos.  E hoje é o janeiro. Janeiros sempre me comovem, é transição. Parece que janeiro é mês de repensar o que anda atravessado aqui, ali, acolá. Ano novo, vida nova? Números, números...  Calendário novo, a soma de um e as exclamações. Acabou rápido, quase não acaba...

Janeiro entrou com lua, e eu, eu estava lá. Lua que talvez quisesse se esconder de seu próprio turbilhão. Quando o relógio apontou o outro dia, quando os desejos de bom ano vieram, eu estava era perdida mesmo. Perdida em tantos outros desejos, que aqui, faziam mais barulho que os fogos explodindo em cores e num rugido que sempre me incomoda o ouvido. Os desejos explodiam também. Das mais diferentes cores, era o boom. Sempre foi, manifestação inquieta e doida de querer o que não se pode, de querer o que não se tem. Faz mal passar assim? Aluada. Virada em devaneios. Tudo indica que passarei o ano em devaneios. Brindando com quem o tato alcança, e com o intangível, comigo. Sou devaneadora por decreto do universo e nada há de se fazer, por isso mesmo escrevo.