sexta-feira, 25 de maio de 2012

Viagem errante de patins



Uma noite acordada a se sonhar, vontades girando em rodinhas sujas de lama pelas calçadas com seus pequenos e desequilibrantes buracos cinzentos que seu cimento de alma juvenil não aprendera ainda amenizar. Tantas vontades e tanta sede do irreal a equilibravam de um jeito desajeitadamente leve em cima daqueles patins. Se não fossem aquelas calçadas da vida tão esburacadas, se não fosse o vento que atrapalhava sua visão embaçada de mundo ao lhe jogar os finos fios de seu cabelo na cara, se não fosse um amanhecer que se esforçava lentamente para nascer, se o não fosse derrepente fosse...
A noite se despedia em uma contagiante preguiça matinal deixando traços de seu imaginário clareando ao longe. As ruas eram desertas e o deserto ia se espaçando e ganhando contornos mais fortes e desesperantes dentro dela. Ela se adaptando ao deserto como os olhos se adaptam à instantânea dor ao contato intruso de uma luz vinda do nada.
Os primeiros raios viam clareando os espaços sombrios do seu estado de quem descobriu que o orvalho da noite afogou suas lágrimas sempre tão incompreendidas. Um dilúvio de orvalho, as gotas grossas do que não veio, um choro que insistia em se petrificar no seu interior, sufocando sua respiração.
As borboletas fugiram do seu estômago, isso a fez sentir-se tonta com um inesperado vazio e com fome. Mas ela tinha também um vestido de festa grudado a seu corpo suado ou orvalhado, uma maquiagem e um coração borrados. Rodopiava inconscientemente, havia tempo que ia para lugar nenhum sem nem se dar conta e o corpo começou a ficar pesado. O que pesava poderia ser sua alma, mas ela tirou a bolsa e a depositou levemente em cima do banco da praça, sem a certeza do que fazia ou agora sentia. Estava tão cheia de arrependimentos aleatórios e irremediáveis. Tinha tanta coisa pesando no peito e suas rosas murcharam ao nascer do sol enquanto ela deslizava pelos becos de sua existência.
Um movimento em vão, uma dança que não existe, uma cura de si mesma, um veneno que a fazia ficar viva e suportar a dor, um destino mapeado, uma bússola quebrada, uma bala encontrada em seu vestido pego no guarda roupa da mãe enquanto esta apenas dormia e um patins velho que nunca mais havia usado. Vontade inquietante de ter uma história daquelas que os atores se aborrecem de representar, de uma fada madrinha que lhe desse uma dose da mais forte das bebidas e um roteiro que ela nunca seguiria. Um grito desenterrado da garganta, o sol descobrindo seu semblante, a viagem errante de patins. A criação de um felizes para sempre, o sempre que acabou, derrepente um ponto final virou reticência.

sábado, 21 de abril de 2012

Livro: Água Viva - Clarice Lispector

Eu vou dizer uma coisa: Eu nunca sei falar com certeza sobre os livros de Clarice Lispector. Como contar a vocês sobre o que é este livro então? Posso denominar como diferente e fascinante? Se não puder perdoem-me, mas é o que mais se aproxima de uma explicação.
Água Viva não é um livro comum. É um monólogo, uma estranheza, uma ânsia pelo conhecimento de si mesma. Como classificá-lo: Romance ou poesia? Os dois? Nenhum? Classificarei como extraódinário, para quê mais definições?
Não consigo escrever um resumo dele para vocês, mas posso contar algumas coisas: O livro não é daquele estilo ao qual estamos acostumados, com começo, meio e fim. É como se fossem anotações aleatórias, devaneios, uma junção de sabe-se lá o quê. O que expliquei não é suficiente não é? Desculpem, mas é isso, é essa confusão, é esse coisa irracional que é o sentir. Sim, isso é um livro de sentir. Uma narrativa inexplicável. Inexplicavelmente apaixonante, em que cada página é uma surpresa um encontro com os sonhos. É um livro tão, mas tão... Clarice.

Download aqui.

sábado, 14 de abril de 2012

Contos de gelo



Antes de começar com o post, vou colocar aqui uma coisa que o WELLJORBERT falou e eu gostei muito, bora ler?
“Tem uma coisa, que eu gosto muito em suas crônicas, esses personagens, que você faz, pra mim soam como um ser, que tem características humanas, sofre dissabores, mas eu os enxergo desprovidos de corpo humano. É um negócio meio louco,como se fosse um espírito ,que estivesse em outra dimensão... É um espírito flutuando nos confins da terra, perscrutando os fenômenos da natureza. Um ser, não para, que caminha sempre pra os lugares mais escondidos do universo, um ser de luz forte! Que toca a minha visão...”

- Bom vamos ao texto de hoje:
Talvez ela fosse apenas algum cuja nunca a vida fora questionada. Habituara-se forçadamente a ser  corroída pelo ácido dolorosamente incessível de algo maior que o próprio universo. Fora completamente feliz? Forças misteriosas que vinham de dentro afirmavam que não, ela era o incomplemento completo de ser pessoa que pensa em pessoa.
Talvez o que precisasse eram de sentimentos, um corpo, um sopro, um grão de areia que fosse só seu. Mas era ela completamente do universo, o universo a possuía e a instruía a não vivificação do que muitas vezes tentara: O ser livre.
O que seria livre? Pássaros são livres? O vento é livre? As ondas se quebram porque são livres? Mas o que é livre não tem liberdade. O que é liberdade está preso no ser livre e isso a entristecia, ela era presa a tudo, mas não conseguia chegar a se acorrentar num delicado tormento livre de existir.
Uma coisa ela me contou: a tristeza impulsiona ações impossíveis. Ela era triste, portanto havia se tornado livre da obrigação de sorrir e mostrar-se satisfeita ao seguir as etiquetas vagabundas de um mundo que se esconde por trás de muros de falso ouro. Enquanto me falava por pensamento, os ventos infernais do inverno vinham se aconchegando e se instalando numa pele já gasta de quem há décadas sentia um frio infiel. A garganta doía e o seu remédio seria o grito. O grito seria o alívio, a cura para se retirar um pouco de uma massa de arrependimentos e impedimentos instalados em sua existência em modo de garganta. Mas como gritar sem voz? Ela ficara muda por que assim quiseram-na, ela era infeliz porque não tinha possibilidades nem paciência, ela era infeliz porque recebeu a maldição da aceitação.
Eu a deixei congelar, minha personagem de contos de gelo. Ela era sua própria maldição e se deixou congelar por motivos nem sempre justificáveis. Ela veio da idade da pedra para deixar-se congelar na antiguidade atual. Ela era o próprio congelamento do não ser que a impedia qualquer movimento ao desconhecido.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Projeto Liberdade para os Beagles : Uma ótima ação


Que tal começar essa semana pós-feriado vendo coisas boas? Não sei se algum de vocês já viu esse vídeo (que já era para eu ter postado aqui no blog a algum tempo), mas eu acho que ainda vale. Imaginem a vida de cães que passaram a vida inteira trancados em gaiolas, sem nunca ao menos terem visto á luz do sol e que eram usados como cobaias em um laboratório na Espanha. Revoltante não? Agora imaginem que esse laboratório faliu e que esses animais iriam ser sacrificados. Aí é que entra a Shannon Keith, responsável pela fundação do Beagle Freedom Project em junção com a ARME (Educação da Mídia para o Resgate de Animais) com o objetivo de salvar esses cachorros.
No vídeo, dá para perceber que os cachorros hesitam em sair das gaiolas, era tudo totalmente novo já que eles nunca haviam saído dali. Eles ainda tiveram sorte de serem resgatados, mas pensemos: Quantos animais estão sendo mortos para satisfazer nossas “necessidades”?  Acho importante refletimos mais sobre isso, afinal, eles também têm direito à vida não acham? O post fica por aqui com o vídeo lindo mostrando o momento em que os cãezinhos saem das gaiolas. Dá para fazer brotar lágrimas dos mais cruéis olhos não?

 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Asas quebradas

Vendo-a assim tão imóvel e infeliz, eu vou dizer o que ela realmente era: uma constante e indefinível metamorfose. Naturalmente mistério, sopro do encanto divino. Era uma borboleta recém saída de um casulo incerto. E era linda, linda, linda. Mas tinha receio de conhecer de perto a encantabilidade do céu. Por medo de voar voltou ao seu casulo e conformou-se a esperar passivamente o atrofiamento de suas asas e a volta a sua forma rastejante anterior. Transformara-se em lagarta amante de uma falsa terra firme. Tinha medo de voar, mas se soubesse quantos perigos a terra esconde!
Era lagarta rara, e por medo fora escolhida para o peso do mundo. Não teve coragem de ser a escolhida dos ares, mas acabara sendo a escolhida de um menino, desses assim banguelos e sardentos com as mãos sujas de meninices.
Ela se tornara tão deprimidamente linda e rastejante dentro daquele pote turvo de vidro de azeitonas! E desde então o menino a amava com um amor que não daria a mais ninguém e nenhum outro ser sentimental poderia sentir. Era o amor de um jeito tão egoísta, como o mais puro dos amores é capaz de ser. Ele justificava dizendo que a tinha encontrado, portanto era de sua propriedade. Ele era um menino que não sabia que é impossível se obrigar a amar. Ele prendera a lagarta por amor, e por isso se sentia o ser mais sublime que já foi inventado. Acreditava que ela seria feliz naquele pote de azeitonas, isso era engano, pura inocência do gostar.
Quanto a ela, desde então chorava frequentemente desperdiçando suas invisíveis e dolorosas lágrimas de lagarta. Ela não o amava. Ela amava a liberdade, o menino era a prisão turva do vidro. Como ser feliz com a possibilidade de só poder ver a vida de dentro de um pote? Questionava o tempo inteiro, mas respostas eram impossíveis de serem ouvidas, o vidro abafava o som tanto quanto abafava sua vida.
Agora, por medo de ser eternamente prisioneira, desejou ser borboleta com medo do céu. De tanto desejo, desenvolveu asas quebradas, daquelas que só o inconsciente tem.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Pedaços daquele espelho manchado com ilustrações de Rodrigo Santos


Alguém aí já leu o post Pedaços Daquele Espelho Manchado? Bom, se não leu ainda dá tempo! Tem uma coisa sobre ele que eu não podia deixar de postar aqui. Vou explicar, um amigo veio com a proposta de desenhar os meus textos, e é claro que eu adorei a idéia né? Os primeiros desenhos ficaram prontos, e ficou a coisa mais linda! E ele muito humilde que é disse para eu dizer que os desenhos foram só um treinamento, nada profissional. Alguém aí acredita nisso?
Quem desenhou foi o Rodrigo Santos, e eu queria agradecer e já quero desenhos novos tá? Vou ficar te cobrando mesmo!  Então, vamos aos desenhos que foram baseados no post que eu citei acima.








sábado, 24 de março de 2012

Uma Vida Sem Telhados

Tão disperso e esplendoroso era o campo no qual colhia suas pequenas ambições pueris. Havia  a sua disposição, um horizonte infinito de colheitas quase sempre mal sucedidas, estas seriam pra sempre suas perseguidoras. Nunca se imaginara de outra forma,a seguir novos conceitos e ultrapassar os limites de sua imensidão. Nunca havia percebido, mas ele todo era cheio de uma forma ilimitadamente poderosa de sentir.
Em qualquer pingo de tinta enxergava arte, um prego enferrujado se transformava em novas idéias construídas instantaneamente. Em sua mente observava mil possibilidades que não eram possíveis de se tentar. Mas ele todo era como uma fonte límpida de água doce num deserto.
Ele tinha todas as sedes possíveis e criava novas outras só para ocupar sua existência tão molhada. Um dia acordou subitamente no meio da noite, as corujas piavam e ele viu estrelas. Aquilo era tão fantástico! Nunca havia prestado atenção em estrelas mesmo que sua vida tivesse sempre sido sem telhados. E ele que não queria saber de nada descobriu que a Terra girava. Ah, sua tonta! Ele andava tão tonto que resolveu desligar-se do que dizia, pensava ou descobria e não mais girar junto com a Terra, mas sim em torno de suas próprias órbitas.
Continuava em sua vida sem telhados, mas lá estrelas não havia. Mas, algumas coisas restaram: Seus campos tão negativos ao olhar dos outros que nada entendiam e um céu cheio de indagações e nuvens de uma coisa diferente do algodão. Ele iria desvendar seus mistérios e começaria a fabricar nuvens em seu quintal. Não era impossível, nunca fora. Encheu de um ar renovador os seus pulmões e experimentou sua maravilha de existir e ter mistérios para se resolver. Pela primeira vez havia se reconhecido como um plenamente satisfeito.

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