sábado, 28 de dezembro de 2013

Bolhas de esquecimento


Se bem me permite, tenho por dentro, como algo que me foi dado de presente em caixa de laços vermelhos e tudo, a firmeza dos deslizes. Destas de levantar os pés bem na pontinha, como quem tem força suficiente para sustentar seu corpo inteiro em dois dedos, para apanhar a fruta mais bonita. Depois provar um pouco e descobrir que o que era doce se acabou.
Findou assim, do mesmo modo que o azedume finda e a queimadura para de arder. Mas raríssimas vezes me proponho a cogitar tal coisa.
Só me lembro das sensações fugidias, como se tudo se transformasse em esponja. E por mais que a esprema, nunca seca totalmente. Como esponja, se seca, então penso que esqueço. Se fica retido, misturam-se a outros líquidos de similar destino, ou nem tanto, originando bolhas, formando um caleidoscópio. Cores que andam a bater nestas paredes de carne, osso e sentimento. O que por vezes, esqueço também.
Fugir é tentar esquecer. Mas nem sempre esquecer é fugir. Pode ser só esses azedumes misturando cores e asas com essas doçuras, que depois saem batendo como se fossem coisas tontas pelas paredes.

Esquecer? Ah, não esquece nunca! Pode ser que a mistura seja bem feita demais, por quaisquer receita pronta de não pensar, ou pelos dedos do acaso. Ou pode ser que as bolhas de tão frágeis serem, estourem ao roçar em algum prego, ou por algum toque descuidado de alguém. Mas, os resquícios ficam em algum canto. E aí é explosão de cores, como fogos de artifício que é incrível de se observar, mas que por vezes assusta e faz sofrer também.

sábado, 30 de novembro de 2013

Mergulho


Sentado entre as pedras, escondido, talvez de si mesmo, por entre as pedras.  A mão ia apoiada no queixo fino e com uma barba que ia despontando por entre o rosto meio rústico, meio que de sonhador que não sabe que sonha. Os olhos iam voando entre o horizonte enevoado da manhã. Mais desorientados que morcegos que se atrevem a voar durante o dia.
Era visto quase sempre assim: recolhido em sua própria concha, escondendo sua pérola ser, alheio a grande parte do mundo. Pelo menos aparentemente. Talvez estivesse apenas a filosofar seus poucos passos e o frenético sem explicação das outras pessoas. Gente que sentia-se tal qual os morcegos durante o dia. Só não haviam percebido ainda. É que faz parte da natureza humana viver sempre em noite sem lua, em que quase nada se enxerga.
A visão era limitada por mais que inventassem seus óculos e instrumentos com lentes de aumento. Mas é que a maioria dos homens apenas sabem ver com os dois olhos da face, e estes são os mais cegos que há! Estes são apenas pequenos lagos. O oceano está no bem mais profundo âmago, com seus movimentos que por vez ou outra te derruba ou te acalma.

Aqueles olhos perdidos do homem acalentado pelas pedras indicava a navegação por entre as tempestades de seu oceano. Já não estava alegre nem triste, São dois extremos redutores demais. Diria que estava absorvido em suas ondas, de sobe e desce, enfrentando a tempestade, ao mesmo tempo que se deliciava com ela. Até que se jogou de seu barco e foi experimentar mais integralmente as delícias e desventuras de seu salgado mar.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Simbiose


Parecia tarde, mas os raios enérgicos do sol ainda batiam nos rostos, como se este fosse um espelho que tentasse reproduzir as cores do céu. Iluminava os olhos, fazia crescer o encanto pelo assombreado que iam destacando aqueles fios de cabelo que o vento desenfreava como se fosse um brinquedo.
Descoberta de sensações, de olhares escondidos, que tentavam frustradamente  serem discretos. Mas era à queima roupa, rompendo a pele, sangrando tudo que viesse pela frente ou pulsasse. Mesmo que este pulsasse ao longe, devagarzinho para não acordar os sentimentos. Mas era longe o bastante para ainda sim ser atingido. Pensavam ser longe o bastante para impedir um toque descuidado, meio que de propósito. Por mais que tentassem, sempre aparecia um arrepio incontido, e uma música que vinha de dentro, com batidas desordenadas, esta música que nos torna a todos, artistas do mundo.
Rompendo o silêncio de palavras, um disse para o outro que queria ficar só. Mas este não sabia mentir. E o outro, ah, o outro era o mais desobediente dos seres, não ouvia nem a si mesmo! Acho que um dia, conjugaram o verbo idílio, e não souberam mais como desconjugar.

Fugiram então para um lugar distante, por caminhos ainda não construídos, suportando ventos, chuvas e os amores, construindo a estrada. Lugar em que cada um deles era a metade que faltava no mundo do outro, ao mesmo tempo em que eram por si só inteiros, mas uma inteireza que incomodava se não existisse um complemento, dois braços a mais para um abraço. Desde então, a única notícia que se tem, é que até hoje, vivem dividindo espaço com beija-flores, na agonia misteriosa do gostar.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Recado a uma alma


Querida,

Tira estes olhos tristes de cima de mim, de cima de si. Esse olhar meio que horizontal, gelado, como o da estátua velha e pálida que fica na pracinha de frente a sua casa. Tira este gosto azedo que habita sua língua, pois sei – e não adianta corar de vergonha - , que você tem balas escondidas dentro dum armário no canto do coração.
Pra quê este sorriso meio sem jeito, assim cheio dessa melancolia moça? Acaso tem medo de sentir coisas maiores do que pensa que pode suportar? A vida tem dessas peças mal montadas ou faltosas, mas vez ou outra o quebra-cabeça consegue se completar direito. Eu sei, sei mais que ninguém da existência e dos motivos desses sorrisos com uma certa curvatura amarga neste semblante, seu sei.
Sei também destes outros alguéns que traz consigo, dentro deste peito que guarda doces escondidos e que é tão aconchegante e talvez você nem saiba, ou tenha medo de conhecer o mesmo. Escolhe um destes outros alguéns de si e mostra ao mundo, mostre para si, ao desmanchar este rosto de pedra e estes retalhos que vive a fazer no vento, atrapalhando seu curso com estas linhas ásperas para que este não te atinja com uma rajada de sentimentos que você vive a ocultar.
Não sei se já percebeu, mas quando você se distrai e deixa o vento brincar com você, o mundo já vira outro. Talvez você só se dê conta disso a noite, quando os barulhos da rua cessam e os da sua mente entram em atividade. Quando seu inconsciente trouxer para os seus sonhos esta imagem e pela manhã, quando você acordar e abrir a janela para de novo remendar o danado do vento, toda armada destas linhas de estratégias para sobreviver em sua armadura durante este dia que começa, você lembre-se do sonho e por medo dele, o reduza a um devaneio inútil, o que é uma pena.
Mas, algum dia, eu sinceramente espero te fazer tropeçar, mas não em pedras, e sim neste sopro que você vive camuflando, e aproveite para voar com ele, sem medos, sem nada, de alma nua de arrependimentos.

Atenciosamente,

Sua vida.

domingo, 1 de setembro de 2013

Ao mordiscar instintos, à ouvir a vida...



Só porque conseguia respirar aquele ar infectado de vida pensava que a vida era fácil. Só porque decidiu sentir, sua estrela cadente caiu e esmigalhou suas convicções nem sempre tão certas. Não me via, mas eu o observava em seu estado de obsorvido por algo invisível a mim. Eu não sei por que deu um leve sorriso por alguns segundos, sorriso para algo de novo invisível a mim. Eu não sabia de nada a seu respeito e me propunha a adivinhar e a pegar as coisas que ele soltava ao respirar.
Estava parado, mas sei que sua mente estava em intenso movimento. Como sei disso? Apenas sei, sem saber como é que sei. Sei que ouvia música. Se for a música harmoniosamente turbulenta do universo ou se era uma música qualquer, acho que isso não importa agora. A esta altura já não sei mais o que importa, acho que ele também não sabe, se sabe esconde bem na sua postura de ser humano com fones no ouvido e comendo um pão com qualquer coisa olhando distraidamente para a rua.
Aí eu chego ao ponto: Ele era tão distraidamente corajoso a ponto de se deixar de morder seu pão com qualquer coisa e começar a mordiscar seus instintos. Alguns minutos depois ele já dilacerava, sem culpa. Como ter culpa se você não se perceber culpado? Ele não tinha culpa por morder seu instinto.
Uma vez dilacerado, agora ele tinha o instinto da falha, aí é que ele se tornou o mais admirável ser, ele havia concebido o instinto verdadeiramente humano e este se espalhava por sua camiseta, num lugarzinho do dente, em todo o seu eu.
Eu tinha dúvidas de sua humanidade, de sua realidade. Mas e se ele for um gênero melancolicamente incompreendido? Se ele sofrer? E esse sorriso que vi no seu rosto de poucos segundos? E seu ato de respirar? Ele era humano, ele vivia os riscos de se ser assim.
Agora ele se precipita em passos indecisos para fora da calçada. E se enquanto ele atravessa a rua ele seja atropelado por uma realidade em alta velocidade? Se nesse momento ele tirasse o fone, ouviria ele os ecos do passado? E se nesse dia ele decidisse não sair de casa a comer um pão de qualquer coisa, ouvindo a música misteriosa do universo a mordiscar seu próprio instinto? E se esquecermos as perguntas? Encontraremos a calma, eu e o desconhecido. Ele atravessou a rua sem que nada extraordinário acontecesse, ele nem se deu conta. Foi quando um errante balão branco veio de outras eras para lhe acariciar os pés e levantá-lo pela mão. Pela primeira vez em seu dia ele cedeu a algo, não questionou, nunca questionava. Se acomodou e deixou que a mente, o balão e o vento lhe guiasse para longe demais para se saber onde fica. Mas isso é maior do que as palavras que eu conheço para descrever. Até que finalmente chegou ao outro lado da rua e o sinal esverdeou outra vez.

domingo, 28 de abril de 2013

Sobre estrelas...



Sentiu que de alguma maneira já era tarde demais para recomeçar a falar de corações partidos. Sentiu que este sentimento não tinha cabimento, e era mesmo verdade que já não mais cabia. Todos os lugares possíveis já estavam ocupados pelos pedaços de suas metáforas desprendidas, flocos de ilusões desalojadas de suas nuvens condensadas por sua maneira de ser.
Vê como aquela estrela brilha? Comentava ora cheia de alegria melancólica que sempre lhe fora tão genuinamente sua. Era então assim, a passos lentos que desenterrava as mãos dos bolsos do macacão azul marinho para apontar o pequeno sol noturno.
Vê? É a mesma estrela de ontem, estava ali mesmo a essa mesma hora. Mas estaria ela brilhando da mesma forma? Não. É confusão de nossos sentidos. Se o fosse não seria hoje outro dia e talvez até fosse cansativo contemplá-la de novo. Todos os dias as estrelas que distraidamente vão ilustrando os olhos do coração mudam um pouco, foi o que certa vez ouvira dizer de um moço que vira comprando flores na loja da esquina.  Não concordava nem discordava, o meio da ponte é mais legal e achava mesmo é que nós é que mudamos o jeito como visualizamos as estrelas, isso sim. Às vezes somos pequenos cegos de nós mesmos, mas alguma hora devemos consertar isso.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Cheiro de céu



Acabrunhada em pensamentos por vezes tão demoníacos que assustariam o próprio capeta. Quanto a Deus , este já nem mais se surpreendia com os redemoinhos que viviam a se formar naquela cabecinha de vento. Ia sempre a passos lentos, como quem tivesse a intenção de calcular quantos passos media sua ousadia, ou talvez o que quisesse mesmo era que esta durasse mais. Gostava de sentir o cheiro do céu. Não, não sabia o que era exatamente o tal cheiro ou se este poderia mesmo existir, mas gostava mesmo assim. Gostar do que não existe é tão bom, até porque, a partir do momento que se gosta é porque se fez nascer para que se fosse gostado por alguém. Voltando a história dos cheiros, é gostoso sabe? Dia desses eu também senti cheiro de céu e quando você consegue inventar um aroma assim e senti-lo dentro de si é quase como que ganhar na loteria.
Acho que também gosto de cheiro de céu, tanto que poderia inala-lo de tal maneira que o sentiria com o maior dos prazeres o mesmo descendo pela minha garganta, fazendo-o entalar um pouquinho para que a sensação durasse mais, e neste momento eu saberia que transcenderia aos maiores encantos e amaria para sempre seus mistérios cheios de nuvem. Estão sentindo também? Palavras de Bandeira na mão e na vida e a doçura de sua Arlequinada encantada.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Brevidade

Acho que precisarei escrever sobre o que não sei. Parece até que gosto de alimentar dúvidas, e olha que elas comem muito e não sei se tem o mais refinado dos paladares, não importa. Foram enganos, ou só mania de querer pôr pra fora algo que nem chegou a se instalar? Sei não também, gosto de guardar tralhas inúteis tipo esses sentimentos.
Preciso da minha caneta preferida para então delinear contornos que dizem ser palavras, mas espera. Eu nunca sei onde está. A caneta ou as palavras? Os dois. Paciência. Não tenho, esse é o problema. Do mais, nem palavras, nem caneta e muito menos paciência. Horas certas já nem espero chegar, mas sinto batidas e não raro pequenos apertos.
Respiro uma coisa no ar e perco-o logo em seguida, assim como também perdi a flor que estava amassada entre as folhas do meu livro, mas em cima da mesa ainda há outras esperando para lerem, ou serem lidas. Quem sabe. Tem fotos lindas guardadas e tantas outras esperando para serem tiradas. Olho as horas e não vejo. Está adiantado ou atrasado? Tempo perdido.