segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Mente insone


Não havia motivo para que fosse assim tão inconstante. Todos os dias ao deitar a cabeça no travesseiro uma nova torrente de pensamentos adentravam no quarto. Não era, tampouco, de se admirar ou arregalar os olhos com o maquinário diário das ilusões.
Acostumada estava com a rotina noturna da insônia. Febrilmente insone. Debilmente balançada por devaneios indomáveis. Mas porque tiravam tanto assim seu sono? Enquanto suava frio, a mente ainda cheia de adrenalina. Revirava-se, procurava soluções que levassem à calma e nada. Não era por nenhum barulho – a casa toda dormia, o que impedia seu descanso era a cabeça cheia de inquietações rotineiras.
Aceitava que a mente humana é uma companheira altamente traiçoeira.  Ela te dá um tapete voador para que você possa sentir-se livre, ilimitado. Enquanto a noite passa, você conhece mundos antes inimagináveis, vontades antigas se realizam. Alguns te tiram o sono: altamente cruéis em mostrar nossos piores medos...
Mas basta que qualquer interferência venha do “mundo exterior”, para que essa mente venha a puxar-lhe o tapete. Pronto, pouso forçado na monótona vida terrena. Havia tempo que estava apenas conectada ao real, acordada podia ver uma pequena flor violeta desabrochando perto da janela. Era como se fosse ontem, então chovia promessas.
Talvez algum dia confessaria que havia feito milhões de tentativas apenas por continuar sem tentar. Por enquanto só queria tomar um café amargo por que a mesma velha rotina não iria tardar.

Michelle Saimon

domingo, 16 de outubro de 2011

Esquecimento de outras estações

Quem sabe seja defeito daquele tempo harmoniosamente nublado que se passou. Gi nunca entendeu porque o tempo levava como folhas ao vento aquela coisa gostosa do passado. Era como se o dia nublado acabasse, mas a neblina continuasse tapando tudo. Até agora não sabia por que, mas decidira aceitar.
O verão insistentemente chegava. Era tempo de colecionar cores, aromas e sabores achados nas outras estações. Agora era até difícil de concentrar-se, sumiram as cores. As cores mortas são mais lindas, mas delicadamente ásperas. Por mais que se aquecesse, aquele toque anestesiante de outras eras ainda ia tapar-lhe os olhos.
Não a culpo. Ninguém sabe o peso que é apenas saber sentir sem nunca ter sentido nada. Mas ela nem se importava; nunca fez sentido mesmo. Mas Gi já havia aceitado que era mesmo como uma bailarina de pernas quebradas. Não mais voava, aceitara a condição de borboleta sem asas.
Desdobrou a sua vida congelada e a levou para descansar ao sol.

Michelle Saimon


sábado, 15 de outubro de 2011

Verbo Ser - Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer? 
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
 
Que vou ser quando crescer?
 
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
 
Sem ser Esquecer.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sonhar ou não sonhar, eis a questão


Alguns dias bastam tocar na vida que ela se dói. Dói-se e dói n’agente também.

Acabamos vendo o contrário do que queríamos que acontecesse. Perguntamo-nos por que não aconteceu do jeito que a gente queria, com sabor e leveza de vento num fim de tarde daquele mesmo jeito que se sonhava. Talvez seja porque a vida, aquela de verdade mesmo, não tem nenhuma noção do que é dormir: ela ruge, grita, corre, transborda, se espedaça e se auto-arruma...! Simplesmente não sobra tempo e talvez por isso não sonhe. Mas sabe, é a Vida real como próprio nome já diz. É real demais. Mas se for não quer dizer que não se possa sonhar. 
O único empecilho é que o real vai exigindo uma série de coisas, obrigações, paciência, pessoas... Talvez até por isso o verbo sonhar seja o mais preferível e entendo por que: Ele é mais compreensível e mais alegre por mais maluco que ele seja. Talvez porque o sonho é um conforto de mentira e isso implica em várias situações que no fim quando não te ajudam, o máximo que eles podem fazer é colocar o pé na frente quando você estiver passando para que você tropece e finalmente dê de cara no chão.
Mas que graça teria se não pudéssemos sonhar? A realidade é dura como pedra. Em sua frieza de gelo, congela os neurônios e não dá para pensar com tanta lucidez assim. Então sonhemos acordados, andando, sentados, dormindo, de pé. Na rua, no parque, na cama, na casa, no coração, na alma ou apenas nos olhos.
Sonhemos porque não há nenhum remédio que possa por um momento mascarar o peso de existir. Não há remédio mais eficiente do que sonhar. Pode ser um sonho impossível - o que geralmente sempre é. Desgarrado, amedrontado, embelezado de desejos, perfeito como ele mesmo.
Sonhemos porque o impossível é a perfeição do existir.


Michelle Saimon

domingo, 9 de outubro de 2011

Namorados

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
-Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
A moça se lembrava:
-A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
-Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
-Antônia, você é engraçada! Você parece louca.
(Manuel Bandeira)