sábado, 19 de novembro de 2011

...nem sempre é necessário tornar-se forte.

Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar".
(Clarice Lispector)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Rock Star


Ah, meu querido!
Eu sou apenas mais uma garotinha inocentemente suja
Que pensa que há algum lugar pra ela nesse inferno social.
Tenho uma solidão inútil que não serve nem pra me dar um copo d’água
Esse lápis de olho borrado simboliza toda minha vida,
E eu só desejaria saber o que eu realmente queria.
Mas sabe, qualquer dia desses eu esbarro nessa vontade
Sem pressa, sem pressão
Poeticamente frágil, me desmanchando em lágrimas e milagrosamente viro forte.
Por vezes triste, daqui a dois minutos alegre
Como posso me arrepender?
Desculpe querido, mas agora eu sou uma Rock Star.
Michelle Saimon

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Melancolicamente feliz

Tinha tudo pra dar certo, mas não deu. Era tudo tão simplesmente complicado que dava até náuseas, cheguei a um ponto extremamente enjoativo em que fui capaz de vomitar qualquer satisfação pelo que acontece num dia específico, talvez a vida toda.  Senti que era a única que me contentava com apenas um sorriso que não exigisse nada em troca. Queria ter a falsa sensação de viver num mundo em que todos enxergavam a alma e não uma beleza artificial que só serve para cegar.
Enquanto pensava nisso percebi que estava no meio da rua e sentia agora meus pés molhando numa pequena poça enlameada, o céu estava fechando e sim, era hora de abrir um guarda chuva que espantasse quaisquer pensamentos sem cabimento tais como os anteriores. Todas as reflexões vêm na chuva, mas por quê? Porque não em dias lindos e ensolarados? Enquanto imagino um futuro bom eu preciso ser acertada por gotículas frias e poças semi-enlameadas? Preciso? Não, mas a chuva é o meu refúgio onde eu acompanho seca minha própria fuga.
Gosto de dias chuvosos, nublados e frios. Eles me fazem melancolicamente feliz.


Michelle Saimon

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Não há nada a lamentar sobre a morte,

  assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a sua morte. Não reverenciam suas próprias vidas, mijam em suas vidas. As pessoas as cagam. Idiotas fodidos. Concentram-se demais em foder, cinema, dinheiro, família, foder. Suas mentes estão cheias de algodão. Engolem Deus sem pensar, engolem o país sem pensar. Esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas. Seus cérebros estão entupidos de algodão. São feios, falam feio, caminham feio. Toque para elas a maior música de todos os tempos e elas não conseguem ouví-la. A maioria das mortes das pessoas é uma empulhação. Não sobra nada para morrer.
Charles Bukowski

Passos na calçada

Ela estava ali: A calçada
Por cima dela chovia
Por cima dela passava
Gente, cachorro, gato
Pássaros não, eles voavam.
Sentia falta do tempo que da calçada ao céu era apenas um pulo.
Jump!

Mas agora a torrente de pensamentos pesava.
Vontade louca de voltar para casa, mas alguma coisa impedia
Sabe o tormento que é sentir falta do tempo confuso de ontem?
Viu-se sozinha e para contribuir
Ouvia apenas o som de seus próprios passos
Parada e calada a calçada continuava...

Michelle Saimon

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Trecho do livro Pequenas Epifanias.

Pensamentos matinais, desgrenhados, são frágeis como cabelos finos demais que começam a cair. Você passa a mão, e ele já não está mais ali – o fio. No travesseiro sempre restam alguns, melhor não olhar para trás: vira-se estátua de cinza. Compacta, mas cinza. Basta um sopro. Pensamentos matinais, cuidado, são alterados feito um organismo mudando de fuso horário. Não deveria estar ali naquela hora, mas está. Não deveria sentir fome às três da tarde, mas sente. Não deveria sentir sono ao meio-dia, mas. Pensamentos matinais são um abrupto mas com ponto final a seguir. Perigosíssimos. A tal ponto que há risco de não continuar depois do que deveria ser uma curva amena, mas tornou-se abismo. 

(Caio Fernando de Abreu)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A rotina do perder

Perder é uma palavra tão comum e de uso quase diário por todos nós. Acredito que seja uma palavra que já nasceu conosco. Mas para cada pessoa, a perda se mostra com uma significação diferente.
A perda está tão associada a nossa vida que seria até estranho perder essa “capacidade”. Mas quem de nós pediu esse dom de perder? Que eu saiba ninguém pediu isso!
Acontece que a perda é essencial para o nosso crescimento, seja por nossa vontade ou não. A nossa vida inteira vivemos a perder: São amigos, confiança, parentes, amores, objetos, oportunidades... É que geralmente essas perdas estão associadas a uma alerta do tipo: Fique mais atento e não deixe tal coisa passar, porque você não aproveitou mais? Dê mais valor ao que possui. São muitas questões que a perda, ao que parece faz questão de nos passar na cara.
Outras vezes a perda pode se apresentar menos incômoda e dolorosa e algumas até imperceptíveis a ponto de depois nem pensarmos mais nelas. Um fio de cabelo que cai, a perda do primeiro dente de leite ou aquele primeiro romance infantil.
Não dá para fugir delas. Nós nascemos e morremos sob a ação de perdas. Elas sempre mudam nossas vidas, nem que seja por alguns poucos dias não é mesmo? E ao nascer já começamos perdendo, logo que somos “arrancados” de um lugar mais quente e mais seguro. Lá era mais apertado, mas toda essa imensidão não sufoca mais? E é de lá que saímos perdendo nossas primeiras lágrimas. Na etapa final, começamos então a como se fosse de novo uma criança: perdendo dentes, temos menos força pra enfrentar ainda o mundo e precisamos de cuidados. Os cabelos agora brancos ou raros. É perdida toda aquela força juvenil que no passado proporcionava coisas tão incríveis! E então finalmente, perdemos o nosso ultimo sopro de vida.
Michelle Saimon