terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"Há, em nós, abismos insondáveis, que jamais exploraremos"


Afinal, são inúteis essas tentativas de análise e de interpretação de nós mesmos. Há, em nós, abismos insondáveis, que jamais exploraremos, onde se recolhem, pelo tempo que lhes apraz, as combinações múltiplas, várias, tantas vezes contraditórias, que compõem as formas sucessivas do nosso espírito. Explicar-me-ei, dizendo que hoje dormimos arlequim, amanhã acordaremos pierrô. As vestes ficam guardadas num armário de nossas profundezas onde se amontoam indumentos de infinita variedade. Alguém no-las troca sorrateiramente, durante o sono, de acordo com um critério que nos escapa. E esse alguém às vezes se diverte, pondo-nos de casaca e em cuecas, ou pregando-nos um rabo de papel no jaquetão. O fato é que se frustra todo o esforço que despendemos para nos impor certa disciplina, certa unidade, certa coerência. À sorrelfa, algum diabo malicioso inutiliza o nosso trabalho, e amanhã seremos o que não queremos, e hoje somos o que ontem fôramos e não quiséramos ser mais.
(...)
Como já disse, a gente não sabe como essas coisas acontecem. Só posso dizer que experimentei hoje uma recidiva violenta, amanheci angustiado depois de ter passado uma noite fértil em sonhos.

Trecho do livro O Amanuense Belmiro de Cyro dos Anjos

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Num deserto imaginário cabe tudo...

Me fala logo porque o céu é assim azul! Você não me explicou ainda porque a água molha e o vento balança teus cabelos. Quantos grãozinhos assim pequeninos e coloridos de areia cobrem este chão? Como o coração funciona? Porque eu não posso escolher se quero nascer ou não? Hey, mundo escute-me!
Devia ser esse sol, escaldante como ele só. Queria água, comida, atenção. Encontrava-se num deserto imaginário, este é o pior de todos. Havia miragens belíssimas de confidências consigo mesmo. Era segredo, nunca ousou falar isso para as paredes.  Elas nunca entenderiam, eram duras, opacas e brancas demais, o que as deixava muito menos confiáveis.
Olhou para os lados sem saber o que acontecia, era estranho e por dentro se remoia por nada entender direito.  Foi então que por estar num deserto imaginário sentiu-se livre e gritou: Eu tenho todas as dúvidas do mundo! Entusiasmado com sua descoberta sentiu-se bem por saber de alguma coisa.
Descobertas assim tem um ar de incredulidade, sentou no chão e apanhou uma pequena concha. Há que duvide que houvessem conchas num deserto, mas o que você não sabe é que num deserto imaginário cabe tudo... Segurou a pequenina concha marfim entre os dedos sentindo os restinhos de areia caindo da mão, soube que era uma sensação incrível. Ele sentiu. Era inacreditável ter aquela conchinha entre as mãos, ficou contente por ter algo que lhe entendesse e ouvisse. Todas as outras coisas do mundo eram surdas. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Falsa Prisão


Era filha única e pensava que o mundo era muito pequeno. Desde o seu nascimento cercaram-na por uma redoma que além de protegê-la de muitos perigos a manteria fora do alcance dos homens quando crescesse, o que não impediu que mesmo assim fosse vista e escolhida e o noivo, disposto a qualquer sacrifício, se dispusesse a conservá-la em sua cristalina prisão.
 Do pequeno espaço onde se mantinha presa ela via o horizonte e a paisagem ao redor onde as pessoas se moviam fora do seu alcance. Por longo tempo imaginou a liberdade do vento e invejou a trajetória das nuvens.
    Até que inesperadamente resolveu escapar, o que só conseguiria com o impacto de seu próprio corpo arremessado contra as transparentes paredes, mesmo  que para isso se retalhasse entre os cacos.
Foi então que, experimentando o medo e a coragem, verificou surpresa que a redoma, feita de tênue papel, se rompeu ao primeiro contato, deixando-a completamente liberta sem o mais leve ou o menor sofrimento.
      Inteira e sem limites ganhou o horizonte.

Retirado do livro Contos Contidos de Maria Lúcia Simões.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Pequeno anjo sujo de lama


Queria ser pintor. Não foi
Artista que pisava pessoas, sua diversão.
Só sobraram mostras de obrigação
Amostras gratuitas que ninguém pediu.

Amor não é.
Um dia pode ter sido,
Mas hoje não mais.

Queria ser livre. Não foi
Pequeno anjo sujo de lama
E de expectativas dissecadas.
A culpa nunca foi minha.

Não sei seu gênero, e este me afeta
Mas peço humildemente senhorita ou senhor tirania
Vá embora do meu jardim
Eu te disse que era proibido pisar na grama.

Michelle Saimon