quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Pedaços daquele espelho manchado

Eu bem que poderia julgar todos os seus deslizes e toda vez que me fez perder a cabeça. Mas não, não farei isso. Eu erro você erra e nós nos perdoamos.  Lembra disso? Aquelas tardes em que você batia na minha porta e vinha se desculpar trazendo sonhos, meus filmes prediletos e aquele sorriso de quem diz “não fiz por mal”. Você ainda lembra?
Sei que já não mais recorda, as memórias se esvaíram e foram embora como se nunca tivessem existido. Eu sei, eu poderia tentar ser mais perfeita, mas se eu mudasse como seria? Acostumar-se-ia ao meu jeito? Habituar-se-ia a uma pessoa estranhamente recriada a atender seus caprichos? Eu poderia fazer isso à algum tempo atrás. Hoje nem se eu quisesse.
Voltei os meus nostálgicos pensamentos naquela manhã em que você veio todo descabelado vestido de vento e disse vem, vamos ficar juntos para sempre! Eu te achei um louco e disse que era tempo demais. Você havia desmanchado seu sorriso de dentes infantis – que eu adorava – mas se refez e novo e disse: Não importa, o tempo é tão curtinho, vamos viver! Eu segurei em sua mão e fui. Eu te confiava a minha confiança no mundo. Você ainda lembra?
Você dizia que não tinha medo da morte. Tão inutilmente corajoso, tão tolo! Se fosse hoje você repetiria essas mesmas palavras, hein? Como o tempo muda nossas escolhas. Mudaram as escolhas, modificaram-se as vidas tão rápido que ainda não consegui compreender. A sua escolha mudou sua vida não é? A minha também, estávamos ligados lembra? Para que entrou naquele carro? Estávamos bem não estávamos? Você disse que iria ficar tudo bem, mas você esqueceu-se de perguntar se realmente ficaria tudo bem para aquela curva e para aquele caminhoneiro bêbado. Maldito!
Então seus juntos para sempre acabaram juntos com aquele espelho manchado que você trazia consigo para alinhar seu cabelo sempre caído no rosto. Eu sei que não me ouve, sei que não se lembra e não vai reagir, mas quer saber? Eu ainda guardo na minha gaveta os pedaços daquele espelho manchado, os sonhos e seu sorriso infantil, isso sim vai ficar junto de mim para sempre. Até que a morte nos separe e nos junte de novo, se é que isso é possível. Quanto a meu estado, embora esteja respirando esse maldito ar de hospital, eu morri junto com você.


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Acabou de ler? Não ainda, clica aqui que tem ilustrações feitas pelo Rodrigo Santos especialmente pra esse post!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Não há porque ter razão

Torturava-me dizendo que eu tinha que encontrar uma razão. Mas sabe, eu não queria, não mesmo! Cansa sabe? A razão na verdade não tem razão nenhuma. É mentirosa, uma completa louca desvairada e ainda por cima acha que tem razão. Ora essa! Mesmo assim me disseram que eu não podia argumentar por que eu não tinha uma maldita razão.
São essas coisas que me deixam nervosa, impaciente. Enquanto falava de coisas tolas eu batia o pé no chão paranoicamente limpo. Mas que orgulho tinha daquele chão! Mas eu não, eu gostava mesmo era daquele vento anterior a tempestade que soprava lá fora e trazia folhas secas através a janela sujando aquele alvo chão. Sim, era desse que eu gostava, aquele vento que trazia uma paz para minhas inquietas questões sem razão nenhuma. Não precisava.
Me sentia bem, mas uma ordem fez questão de tirar meus pensamentos de suas estranhas órbitas. Fecha essa janela! Essas malditas folhas secas estão acabando com a minha ordem. Dizia enraivecida a voz. Eu tinha paciência, aguentava. Eu gostava da janela e do seu vento, de suas folhas e sua sujeira. Dei alguns passos para frente e no meio do caminho parei decidida a não obedecer a voz, mas esta continuava gritando suas coisas chatas de estraga-prazer. O que eu podia fazer? Aquilo já estava esfarelando minha calma aos pouquinhos. Doía pra caramba, a janela era a minha liberdade, meu único contato com o que as pessoas costumam chamar de mundo. Decidi, continuei andando e fechei a janela, até porque já que eu não tinha nenhuma razão, era imaginadamente obrigada a obedecer que achava que tinha.
Sem dar tempo ao descontrole abri a porta e praticamente me joguei sentada naquela varanda forrada com folhas, lá eu podia me refugiar, sentir o vento. Peguei um graveto e comecei a desenhar utopias na terra. Eu me sentia bem apesar de tudo, mas como eu não tinha razão ninguém entendia como isso era possível.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A morte dos girassóis - Caio Fernando Abreu

Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo lenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que que foi, e ele enfim suspirou: “Me
disseram no Bonfim que você morreu na quinta-feira”. Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: “É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri
mesmo, e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixoastral”.
 Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa.
Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas. Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos
destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.
Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: “Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?” O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.
 Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.
 Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tãoquebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Poisno dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário,
feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, crau! Veio uma chuva medonha e deitou-o por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a idéia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.
 Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro. Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.
 Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.

Caio Fernando Abreu, livro Pequenas Epifanias, pág: 145

sábado, 14 de janeiro de 2012

Livro: Rilke – Cartas a um jovem poeta


Imagine que você é um jovem aspirante a poeta e por meio de cartas pede conselhos a um já famoso escritor. O nome desse escritor é Rainer Maria Rilke e o jovem chama-se Franz Kappus. Agora imagine que essa carta é respondida e é só o começo para muitas outras. Esse é o livro Rilke – Cartas a um jovem poeta onde são encontradas as cartas de Rilke mandadas como resposta às dúvidas de Kappus. E que cartas! Simplesmente incríveis com suas opiniões não só a respeito da criação artística mas aspectos como a solidão, Deus, a relação entre os seres humanos, etc.
Apesar de aparentemente pequeno (apenas 91 páginas) é riquíssimo em um conteúdo surpreendente. Esse livro acabou se tornando um dos indispensáveis em minha vida. Sabe aquele que você quer sempre ter na prateleira e folhear de vez em quando? Ele é um desses! Depois de ler, quem vai querer receber essas cartas é você, então está esperando o que? Corre! Quem quiser fazer o download é só clicar aqui. Beijos!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Remendando Memórias - Parte II

*Parte I aqui
Olhou com amor o pequeno tecido e direcionou sua atenção para a mesinha. Ela continuava lá, sim! A máquina de remendar memórias, agora carcomida pela insistente ferrugem que o tempo põe nas coisas. Era muito velha; a máquina, as lembranças, quem as costurava. Será que iria conseguir terminar seu trabalho? Com essas mãozinhas enrugadas e trêmulas, com essa máquina velha enferrujada e ainda mais essas memórias semi destruída pelas traças! Demoraria demais, devia haver outro jeito.
Foi lentamente ao armário e pegou alguns frasquinhos de vidro. cobriu se toda com preciosos óleos anti-ferrugem e bebeu um gole generoso de água colhida em uma fonte da juventude que jorrava de sorrisos esquecidos. E agora, sentia-se melhor? Não sabia, era estranho. Porque se sentira assim se só queria ver suas memórias tão vivas de novo? Saiu decidida em direção ao jardim com seus passinhos apressados, mas tristes e se sentou em meio as folhas que caiam das árvores. Ficou por um bom tempo, o céu se pintava levemente de rosa. No dia que se conheceram  céu estava assim. Lembrava bem ainda, essa foi a memória que conseguiu remendar melhor. Tinha uns pequenos buracos, isso não a desanimava.
A noite já caía, precisava fazer o chá. Tomaria sozinha, sem poder ver as ruguinhas salientes ao redor daqueles olhos.  Não iria passar na padaria e trazer os biscoitos, antes de fechar os olhos ele dissera para que ela nunca deixasse as traças comerem completamente as memórias, desejou que ela ficasse bem, e explicou sorrindo que fazia parte da vida, não queria vê-la chorar. Ela tomaria seu chá sozinha dessa vez, com suas mãozinhas enrugadas já antes mencionadas, depois voltaria e não, não desistiria iria consertar aquelas memórias. Nesse momento já não enxergaria mais nada, os grossos óculos, a janela. Nada mais adiantava, nascia uma fonte cristalina e salgada de seus olhos cansados.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Remendando Memórias - Parte I


Passava horas a fio a remendar velhas lembranças. Com suas mãozinhas enrugadas e trêmulas era difícil fazer o fiozinho prateado entrar na agulha, mas mesmo assim continuava. Era uma tarefa quase impossível, as memórias vinham em forma de tecidos velhos e gastos pelo tempo, qualquer movimento mais brusco e via o velho tecido se desfazendo em mil fiapos que se libertavam levemente em direção à janela aberta. Pensava que era tudo culpa dela. Ah, essa janela que lhe deixava escapar os fiapinhos de memória! Já haveria trancado ela se não fosse a claridade que proporcionava para fazer seus tão preciosos remendos. Seus olhos por trás do grosso óculos já não eram mais os mesmos...
Qual remendar primeiro? Eram tantas especiais. Pensou e com a sua mãzinha confusa passou a mão pelos velhos tecidos e pegou o mais prejudicado pelas traças. Continuava uma bela lembrança, se decidiu sorrindo que aquela seria a última a receber seus cuidados. Escolheu outra, esse tão igualmente importante quanto a anterior, era a memória do dia que seu velho chegou sorrindo em casa, nunca esqueceria aquele sorrisinho que faziam as rugas ao redor dos olhos ficarem ainda mais salientes.  Vinha com uma caixa toda enfeitada na mão. Surpresa! Era uma máquina de costurar memórias; a mais linda e amável de todas as outras que um dia poderia ter existido. Mas era rara, poucas pessoas tinha a chance de ter uma máquina para remendar suas melhores lembranças. E poucas pessoas tinham esse amor de ruguinhas salientes ao redor dos olhos.