segunda-feira, 26 de março de 2012

Pedaços daquele espelho manchado com ilustrações de Rodrigo Santos


Alguém aí já leu o post Pedaços Daquele Espelho Manchado? Bom, se não leu ainda dá tempo! Tem uma coisa sobre ele que eu não podia deixar de postar aqui. Vou explicar, um amigo veio com a proposta de desenhar os meus textos, e é claro que eu adorei a idéia né? Os primeiros desenhos ficaram prontos, e ficou a coisa mais linda! E ele muito humilde que é disse para eu dizer que os desenhos foram só um treinamento, nada profissional. Alguém aí acredita nisso?
Quem desenhou foi o Rodrigo Santos, e eu queria agradecer e já quero desenhos novos tá? Vou ficar te cobrando mesmo!  Então, vamos aos desenhos que foram baseados no post que eu citei acima.








sábado, 24 de março de 2012

Uma Vida Sem Telhados

Tão disperso e esplendoroso era o campo no qual colhia suas pequenas ambições pueris. Havia  a sua disposição, um horizonte infinito de colheitas quase sempre mal sucedidas, estas seriam pra sempre suas perseguidoras. Nunca se imaginara de outra forma,a seguir novos conceitos e ultrapassar os limites de sua imensidão. Nunca havia percebido, mas ele todo era cheio de uma forma ilimitadamente poderosa de sentir.
Em qualquer pingo de tinta enxergava arte, um prego enferrujado se transformava em novas idéias construídas instantaneamente. Em sua mente observava mil possibilidades que não eram possíveis de se tentar. Mas ele todo era como uma fonte límpida de água doce num deserto.
Ele tinha todas as sedes possíveis e criava novas outras só para ocupar sua existência tão molhada. Um dia acordou subitamente no meio da noite, as corujas piavam e ele viu estrelas. Aquilo era tão fantástico! Nunca havia prestado atenção em estrelas mesmo que sua vida tivesse sempre sido sem telhados. E ele que não queria saber de nada descobriu que a Terra girava. Ah, sua tonta! Ele andava tão tonto que resolveu desligar-se do que dizia, pensava ou descobria e não mais girar junto com a Terra, mas sim em torno de suas próprias órbitas.
Continuava em sua vida sem telhados, mas lá estrelas não havia. Mas, algumas coisas restaram: Seus campos tão negativos ao olhar dos outros que nada entendiam e um céu cheio de indagações e nuvens de uma coisa diferente do algodão. Ele iria desvendar seus mistérios e começaria a fabricar nuvens em seu quintal. Não era impossível, nunca fora. Encheu de um ar renovador os seus pulmões e experimentou sua maravilha de existir e ter mistérios para se resolver. Pela primeira vez havia se reconhecido como um plenamente satisfeito.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Um Mundo em conserva

No finalzinho de uma das aulas de hoje o professor virou-se para os alunos e pediu uma coisa que era desafio para muita gente: falar um pouco sobre si próprio. Eu não sei fazer isso, então não sei como faço. Nesse pedido há um grande perigo e dificuldade daquelas de fazer suar as mãos e tremer a caneta. Exagero? Sempre. Mas porque esta dificuldade? Se souber me diz pois não conheço esse mistério e nem me sinto tão peixe a ponto de mergulhar neste oceano indiscreto.
Eu não sei e nem posso responder com totalidade esta questão que quer destampar meu mundo em conserva. Olha bem, mesmo que eu abrisse esse pote e me banhasse em teu líquido, eu não saberia como responder esta pergunta que vem eriçando pelos e congelando mãos desde que o primeiro “quem é você?” foi perguntado.
Embora sejamos as pessoas que mais sabem o que habita e acontece nessa caverna interna que chamamos de eu, nós temos medo de penetrar a imensidão escura e ver-se de encontro com os morcegos que nos pegam pelo pé e nos arrastam a nossos abismos. Fugir ou enfrentar e depois pular por si próprio no desconhecimento? Decida e não me leve, decidi que ficarei na porta a esperar sentada em algum lugar. Tenho medo e admito que há um receio no conhecimento do que chamo de eu.
E se eu descobrir que eu não era o que queria ou perceber que eu na verdade não era eu? Poderia conviver com uma falsa piedade individual? Estou questionando demais, bem sei, mas se fui questionada e pega de surpresa na minha infantil segurança que mal há? Então agora sou eu que me cobro respostas e me pergunto: Quem sou eu? Não diria mesmo que soubesse a fundo, nem a mim, nem a você e se você souber finja que não sabe, eu não suportaria descobrir sabe-se lá o quê. É perigoso e intimidador demais. Desvenda-me, desvende-se e desvendaremos, ou não. Somos fruto da inexplicável incerteza e por via das dúvidas nascemos cheios delas e de vontade de saber o que somos. Somos um algo que não se explica, se vive, se sente, se desespera, se é humano.
Eu tenho uma chave sem porta dentro de mim e sei que em você deve existir algo parecido. Se ouso entrar em minha caverna cheia de pedrinhas lisas posso me perder e nunca mais retornar. Estarei eu tão gravemente enganada? Sabe-se lá! Mexeram com meu desequilíbrio habitual a partir do momento em que fui questionada.Por garantia, deixarei meu mundo em conserva e nem ouso abri-lo completamente, tenho medo que estrague.

sábado, 3 de março de 2012

Humanamente afetável


Lançando-se ao desconhecido, ao infinito e indizível espremedor de corações. Que aperta tanto esse pobre ser pulsante que chega a dar dó. Espreme e guarda teu líquen para a posteridade, esse líquido de pouco sabor! Esse fel açucarado demais. Guarda, que mesmo assim estas estrelas artificiais e pálidas que brotam mansamente das janelas nunca ofuscarão o que tendes de melhor.
Eu me contei que tinha sonhos inexpressivos dos quais seus significados nunca encontraremos nos livros. Poetas e seu admirável poço de sabedoria não conseguirão descrever inteiramente porque os sonhos existem ou porque a maioria deles gosta tanto de massacrar os corações mais frágeis. Mas sentem, algo me diz que sentem essa inquietação de não saber o que se sonha ou o que se sente e não conseguir descrever. As palavras às vezes são tão limitadas!
Limitadas ou não ai de mim se as palavras não existissem!  Se existem palavras o alívio logo vem vindo de passagem, aí é que eu respiro seu ar. Senti o cotidiano em seu ritmo descaradamente abalável. Eu vi que era cinza com uma gota de azul. Foi ai que me permiti diluir seu azul para tornar o cinza de outra cor. Não se misturavam e sim se complementavam. De qualquer modo se diluía em mim o espectro da vida.
Como não sentir se agora pesava em minhas costas? Mas havia algo mais pesado que isso. Eram os apegos pregados no fundo da mochila, era a história repetida tantas outras vezes, era o mundo em minhas costas. O universo batendo asas na palma de minha mão depois de escrever no vento que eu seria frágil o bastante para aguentar.
Aguentei como disseste. Depois de uma respiração sorriu-me e minha boca sentiu o hálito sereno do universo repuxando-a num sorriso. Senti-me calma no momento de sua fingida despedida. Volta logo universo, que dou-te um cálice do meu mais puro sangue para que seja bom como tu dizes. Ninguém percebe nada e se percebe logo esquece. Mesmo assim desejarei profundamente esse hálito fresco convertido em sorrisos. O que mais posso fazer? Sempre serei humanamente afetável por despercebidos eventos do cotidiano