sábado, 14 de abril de 2012

Contos de gelo



Antes de começar com o post, vou colocar aqui uma coisa que o WELLJORBERT falou e eu gostei muito, bora ler?
“Tem uma coisa, que eu gosto muito em suas crônicas, esses personagens, que você faz, pra mim soam como um ser, que tem características humanas, sofre dissabores, mas eu os enxergo desprovidos de corpo humano. É um negócio meio louco,como se fosse um espírito ,que estivesse em outra dimensão... É um espírito flutuando nos confins da terra, perscrutando os fenômenos da natureza. Um ser, não para, que caminha sempre pra os lugares mais escondidos do universo, um ser de luz forte! Que toca a minha visão...”

- Bom vamos ao texto de hoje:
Talvez ela fosse apenas algum cuja nunca a vida fora questionada. Habituara-se forçadamente a ser  corroída pelo ácido dolorosamente incessível de algo maior que o próprio universo. Fora completamente feliz? Forças misteriosas que vinham de dentro afirmavam que não, ela era o incomplemento completo de ser pessoa que pensa em pessoa.
Talvez o que precisasse eram de sentimentos, um corpo, um sopro, um grão de areia que fosse só seu. Mas era ela completamente do universo, o universo a possuía e a instruía a não vivificação do que muitas vezes tentara: O ser livre.
O que seria livre? Pássaros são livres? O vento é livre? As ondas se quebram porque são livres? Mas o que é livre não tem liberdade. O que é liberdade está preso no ser livre e isso a entristecia, ela era presa a tudo, mas não conseguia chegar a se acorrentar num delicado tormento livre de existir.
Uma coisa ela me contou: a tristeza impulsiona ações impossíveis. Ela era triste, portanto havia se tornado livre da obrigação de sorrir e mostrar-se satisfeita ao seguir as etiquetas vagabundas de um mundo que se esconde por trás de muros de falso ouro. Enquanto me falava por pensamento, os ventos infernais do inverno vinham se aconchegando e se instalando numa pele já gasta de quem há décadas sentia um frio infiel. A garganta doía e o seu remédio seria o grito. O grito seria o alívio, a cura para se retirar um pouco de uma massa de arrependimentos e impedimentos instalados em sua existência em modo de garganta. Mas como gritar sem voz? Ela ficara muda por que assim quiseram-na, ela era infeliz porque não tinha possibilidades nem paciência, ela era infeliz porque recebeu a maldição da aceitação.
Eu a deixei congelar, minha personagem de contos de gelo. Ela era sua própria maldição e se deixou congelar por motivos nem sempre justificáveis. Ela veio da idade da pedra para deixar-se congelar na antiguidade atual. Ela era o próprio congelamento do não ser que a impedia qualquer movimento ao desconhecido.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Asas quebradas

Vendo-a assim tão imóvel e infeliz, eu vou dizer o que ela realmente era: uma constante e indefinível metamorfose. Naturalmente mistério, sopro do encanto divino. Era uma borboleta recém saída de um casulo incerto. E era linda, linda, linda. Mas tinha receio de conhecer de perto a encantabilidade do céu. Por medo de voar voltou ao seu casulo e conformou-se a esperar passivamente o atrofiamento de suas asas e a volta a sua forma rastejante anterior. Transformara-se em lagarta amante de uma falsa terra firme. Tinha medo de voar, mas se soubesse quantos perigos a terra esconde!
Era lagarta rara, e por medo fora escolhida para o peso do mundo. Não teve coragem de ser a escolhida dos ares, mas acabara sendo a escolhida de um menino, desses assim banguelos e sardentos com as mãos sujas de meninices.
Ela se tornara tão deprimidamente linda e rastejante dentro daquele pote turvo de vidro de azeitonas! E desde então o menino a amava com um amor que não daria a mais ninguém e nenhum outro ser sentimental poderia sentir. Era o amor de um jeito tão egoísta, como o mais puro dos amores é capaz de ser. Ele justificava dizendo que a tinha encontrado, portanto era de sua propriedade. Ele era um menino que não sabia que é impossível se obrigar a amar. Ele prendera a lagarta por amor, e por isso se sentia o ser mais sublime que já foi inventado. Acreditava que ela seria feliz naquele pote de azeitonas, isso era engano, pura inocência do gostar.
Quanto a ela, desde então chorava frequentemente desperdiçando suas invisíveis e dolorosas lágrimas de lagarta. Ela não o amava. Ela amava a liberdade, o menino era a prisão turva do vidro. Como ser feliz com a possibilidade de só poder ver a vida de dentro de um pote? Questionava o tempo inteiro, mas respostas eram impossíveis de serem ouvidas, o vidro abafava o som tanto quanto abafava sua vida.
Agora, por medo de ser eternamente prisioneira, desejou ser borboleta com medo do céu. De tanto desejo, desenvolveu asas quebradas, daquelas que só o inconsciente tem.