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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Hábitos

Foto: Adriano Pansera



Inventar-se-ia em seus desencantos. Brincaria com os que estavam presos em cantos, tiraria as bordas daqueles encantos esquecidos na memória, mofando com a espera infantil que tem os desesperados, ao sentirem na pele uns segundos passando a vez para outros. Tempo ficando para trás, o que até que não poderia ser tão mal assim.
Sentiu várias vezes que o que lhe devorava a carne com certo poder de posse, tal como águias famintas, eram os hábitos. Enquanto que novo era o medo de sentir. Assim achava às vezes, por mais que o novo fosse tão velho que suas barbas brancas quase varriam o chão. Mas deixa essa sujeira, deixa esses rastros. Deixa tudo aí que a vida vem em furacão e leva.
Havia o medo, mas havia o conhecimento de que havia algo que pudesse acender o espírito sem que desse totalmente por si. Sem precisar roubar as luzes dos postes daquela cidade suja e barulhenta. Queria a luz dos acasos, a luz de chuva com sol. Aquela chuva que pode vir mansa ou arrebatadora, ou pode só pingar. Provocando inundação, ou por maldade sair e alimentar a secura. Às vezes nem um, nem outro. Sabe-se que pode ser nada, ou que arrebente logo o mundo com seu tudo!

Por vezes, acusava dar um passo em falso. Mas até esse hábito cansava de tal modo, que era um esquecer-se de si, jogar-se numa cama de pregos só para sentir que existe enquanto ser que respira. Só para não esquecer que pode por vezes sangrar. Ia então, caminhando pelo asfalto numa corrida sem pressa. Como se pudesse assim asfaltar sua solidão terrena, que é tão de todo mundo! Mas poucas vezes uma pega na outra e se abraçam totalmente, na tentativa de preencher o perigo às vezes nocivo do toque. Nos afastamos com algo que aprendemos para escondermos nós dos outros, um olá.

domingo, 28 de abril de 2013

Sobre estrelas...





Sentiu que de alguma maneira já era tarde demais para recomeçar a falar de corações partidos. Sentiu que este sentimento não tinha cabimento, e era mesmo verdade que já não mais cabia. Todos os lugares possíveis já estavam ocupados pelos pedaços de suas metáforas desprendidas, flocos de ilusões desalojadas de suas nuvens condensadas por sua maneira de ser.
Vê como aquela estrela brilha? Comentava ora cheia de alegria melancólica que sempre lhe fora tão genuinamente sua. Era então assim, a passos lentos que desenterrava as mãos dos bolsos do macacão azul marinho para apontar o pequeno sol noturno.
Vê? É a mesma estrela de ontem, estava ali mesmo a essa mesma hora. Mas estaria ela brilhando da mesma forma? Não. É confusão de nossos sentidos. Se o fosse não seria hoje outro dia e talvez até fosse cansativo contemplá-la de novo. Todos os dias as estrelas que distraidamente vão ilustrando os olhos do coração mudam um pouco, foi o que certa vez ouvira dizer de um moço que vira comprando flores na loja da esquina.  Não concordava nem discordava,  e achava mesmo é que nós é que mudamos o jeito como visualizamos as estrelas, isso sim. Às vezes somos pequenos cegos de nós mesmos, mas alguma hora devemos consertar isso.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Necessidade




As palavras vão saindo de fininho, escorregando por entre as veias, olhos e pelo papel. Não é uma movimentação imperceptível: Faz barulho, e não vai embora, fica para lá e para cá rodopiando pelos cantos, correndo freneticamente e de pirraça vai derrubando minhas ideias que com tanto esforço estavam dobradas, limpas e empilhadas desajeitadamente dentro de minha mente. Trouxeram uma poeira desconcentrante que sujou todo o meu trabalho e além de tudo veio só para perfurar a minha calma que inventei durante anos seculares para conseguir viver.
São tantas coisas necessárias para se dizer. E essas tantas palavras que fogem do meu controle e que também criei para suportar qualquer coisa sem nome. Preciso falar logo, gritar o mais alto possível. Não, eu preciso escrever, preciso me libertar ou pelo menos esquecer um pouco de toda essa desordem que eu mesmo vivo criando. Eu apenas quero escrever, mas neste momento a mão, a mente, não obedecem ao que comando e julgo necessário, mas só escrevendo é que consigo aliviar essa confusão incômoda que não deixa com que eu pense com clareza.
Percebo que já se tornou um vício, um alívio imediato para tudo, um necessidade, água pura para essas sedes eternas que acabam em minutos. Preciso escrever, e de repente o fiz. Entra um vento pela janela, a cortina balança sem delicadeza, o caderno está cheio de palavras rabiscadas. Respiro, inspiro, respiro, inspiro... Acho que funcionou por enquanto...