Perder a viagem, ganhar o dia

Mirante de São Lázaro, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

O galo tá cantando como se anunciasse tudo que é música que eu pretendesse ouvir. Os outros sons do cotidiano se fazem presentes também. O carro do ovo anunciando seus mil ovos "graúdos e selecionados", a buzina dos carros, as conversas das pessoas. Reclamam de tudo eles.
Não é do cotidiano ouvir o galo cantando assim por aqui, ou o vento passando com tanto frescor. Cotidiana é a sequência que se repete. Já a música dos galos e os movimentos do vento, nunca são os mesmos.
É sempre susto (susto bom), quando se vem e é possível esbarrar no inesperado. Até os galos que cantavam sem que eu nunca os ouvisse, parecem ter aumentado de volume, de pose, e se fazem presentes mesmo que longe.
Seria eu então que já não mais os ouvia? A surdez com que nos põe os dias é quase infinita. Para além disso, ouço buzinas, o farfalhar dos papéis... intermináveis.
Infinitos
Insuportáveis
O infinito de dentro das minhas células grita por mais. Se agitam todas na alegria inesperada de um dia qualquer poder sentar no mirante, achar uma pena perdida na rua, sentir a brisa vindo de fora pra dentro e ouvir os galos cantarem às dez da manhã no meio de uma capital.
De onde posso ver o mar.
De onde posso me ver, espelhada nas águas ao longe. Espalhada no vento. Junto de mim.
Nas vistas da igrejinha que me inspira tantas belezas, em frente à tantas memórias. Sinto-me trocando de peles, de eus, eternamente. Espiralando-me pelo ar.

Michelle Saimon
21.06.17
Quando pensei que tinha perdido a viagem. Mas na verdade, ganhei o dia.